Table Of ContentELOS MEANDROS
ETNIAS, TRIBALISMO E ESTADO EM ÁFRICA
JEAN-LOUP AMSELLE e ELIKIA M'90K0L0
(COORD.)
edições pedago
Copyright © 2005, La Découvert, segunda edição
Título Original: Au couer de l'ethnie. Ethnies, tribalisme et État en Afrique
© desta edição
Edições Mulemba da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto
Título: Pelos Meandros da Etnia. Etnias, tribalismo e Estado em África
Coordenadores: Jean-Loup Amselle e Elikia M'Bokolo
Colecção: Reler África
Coordenador da Colecção: Victor Kajibanga
Tradução: Narrativa Traçada
Revisão do Texto: Sílvia Neto
Design e Paginação: Márcia Pires
Impressão e Acabamento: Cafilesa, Soluções Gráficas
ISBN: 978-989-8655-32-5
Depósito Legal: 373105/14
ELOS MEANDROS
Abril de 2014
ETNIA
A presente publicação é uma coedição das Edições Pedago e das Edições Mulemba
da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, Luanda, Angola.
Nenhuma parte desta publicação pode ser transmitida ou reproduzida por qualquer
meio ou forma sem a autorização prévia dos editores. Todos os direitos desta edição
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ETNIAS. TRIBALISMO E ESTADO EM ÁFRICA
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edições pedd ago
índice
Prefácio à segunda edição 9.17
Pelos Meandros da Etnia revisitado
Introdução 19. 22
Etnias 6 espaços: para uma antropologia topológica 23. 54
Jean-Loup Amselle
Os bété: uma criação colonial 55.86
Jean-Pierre Dozen
Cada qual com o seu bambara 87.123
Jean Bazin
Hútu e Tutsi no Ruanda e no Burundi 125.157
Jean-Pierre Chrétien
Conjunturas étnicas no Ruanda 159.174
Claudine Vidal
O «separatismo catanguês» 175. 209
Elikia M'Bokolo
Prefácio à segunda edição
Pelos Meandros da Etnia revisitado
No preciso momento em que abraçámos um projecto orientado para a
desconstrução da etnia, contávamos com as obras de dois precursores,
P. Mercier e F. Barth, cujas análises eram consentâneas com um conjun-
to de ideias provenientes da antropologia. No seu estudo dedicado aos
somba do Norte do Benim, P. Mercier (1968) constatara que a definição
clássica de «etnia» não era aplicável ao grupo em questão. Na esteira
da tradição anglo-saxónica e, em particular, dos trabalhos de M. Gluck-
man e S. F. Nadei, P Mercier colocava a tónica na historicidade da etnia
identificando uma diferença fundamental entre a etnicidade do período
pré-colonial e aquela da época colonial. Num estudo tornado clássico,
F Barth (1969), por seu turno, privilegiou uma abordagem centrada na
travessia de uma pluralidade de grupos por uma «fronteira», conside-
rando-a, por conseguinte, o verdadeiro objecto da antropologia.
Munidos desse arsenal teórico, mergulhámos num labor de des-
montagem da noção de etnia. No início da década de 1980, muitos de
nós estavam saturados da vulgata jornalística que consistia, e consiste
sempre, em dar conta de um determinado acontecimento decorrido no
continente africano como sendo da ordem de um «conflito tribal» ou de
uma «luta étnica», remetendo para uma espécie de selvajaria medular,
apenas suspensa durante o breve período da colonização europeia. Com
efeito, se, no imaginário jornalístico, o mundo árabe corresponde à
esfera do integralismo e a índia à do sistema de castas, o continente
africano é, por excelência, a terra de eleição dos antagonismos étnicos.
Atente-se, por exemplo, no tratamento mediático e na capitalização
política dos conflitos que se verificaram, ou que se verificam hoje em
dia, na Libéria, na Serra Leoa, no Ruanda, no Burundi e no Congo.
No nosso entender, não se tratava de demonstrar a inexistência das
etnias em África - o que nos foi censurado - mas antes o facto de as etnias
actuais, as categorias que balizam a reflexão sobre os actores sociais,
constituírem categorias históricas. Com o intuito de provar a pertinên-
cia da presente abordagem, basta pensar no que sucedeu na Libéria há
Prefácio à segunda edição Pelos Meandros da Etnia revisitado
alguns anos. À semelhança de vários outros países africanos afectados à distinção entre «sociedades englobantes» e «sociedades englobadas»,
pelas lutas tribais, a situação liberiana vinha, aparentemente, confirmar assim como a ênfase concedida ao carácter performativo dos etnónimos
as nossas proposições. De facto, nesse país, o conflito entre o governo delineavam os contornos de uma antropologia diferente daquela que
de Samuel Doe, por um lado, e as forças de Charles Taylor e Prince John- encabeçava o panorama francês. Mais do que encarar as etnias como
son, por outro, parecia cingir-se a um confronto entre as etnias krahn e universos fechados e paralelos, os sistemas políticos pré-coloniais como
mandingo, por um lado, e as restantes etnias da Libéria, por outro. Ora, entidades claramente separadas, as concepções religiosas como mun-
o termo «mandingo» não remete para uma etnia específica, designan- dos devidamente circunscritos, os tipos de economia como regimes
do, pelo contrário, o conjunto dos comerciantes muçulmanos, tal como distintos, decidimos estudar as inter-relações, as imbricações e os en-
certos jornalistas se viram forçados a reconhecer antes de ficarem sub- trelaçamentos, indo assim ao encontro das concepções de I. Kopytoff
mersos na vaga etnicista. Tendo em conta o campo semântico dos ter- (1987) que, por seu turno, desenvolveu uma análise destacando as rela-
mos «mandingo», «mandingue» ou «malinké», afigura-se evidente que ções «centro-periferia» e a «fronteira» enquanto matriz das formações
a acepção do termo «mandingo» na Libéria corresponde apenas a um políticas africanas.
dos sentidos possíveis dessa categoria, o qual é efectivamente dotado de
um valor performativo. Por conseguinte, na nossa perspectiva, trata-
A etnia: uma invenção colonial?
va-se de colocar o construtivismo em primeiro plano, em detrimento
do primordialismo. Ao demonstrar a impossibilidade de atribuir um
único sentido a um dado etnónimo, sublinhávamos a relatividade das A problemática construtivista da etnia é indissociável da questão da
pertenças étnicas mas sem recusar aos indivíduos o direito de reivin- «reapropriação», susceptível de ser definida como o fenómeno de
dicar a identidade da sua preferência. Eis o resultado desse longo retroacção {feed back) dos enunciados «hécticos» sobre os próprios ac-
trabalho colectivo encetado no início dos anos 80 e dado à estampa em tores sociais. Nesse sentido, refere-se à produção das identidades locais
1985, o qual é agora reeditado. a partir daquilo que V. Y. Mudimbe (1988) apelidou de «acervo colonial»
Pelos Meandros da Etnia causou, desde logo, algum brado, servindo e aplica-se, em particular, ao carácter colonial das categorias étnicas que,
de tema para debates tanto mais apaixonantes quanto a obra era com- como é sabido, constitui uma das ideias basilares de Pelos Meandros da
preendida erroneamente. Publicada logo após o arquejo dos movimen- Etnia. De acordo com essa perspectiva, o modo como os nativos se vêem
tos regionalistas da década de 1970, assumia-se como um ataque frontal a si próprios relacionar-se-ia com os ecos dos relatos da exploração e
a determinadas evidências do pronto-a-pensar da época, manifestadas, da conquista, bem como dos textos etnológicos coloniais e pós-coloniais
em particular, no movimento ecológico-esquerdista. Todavia, também que versam sobre a sua consciência de si próprios. De um modo geral,
minava os fundamentos de uma antropologia em risco de perder o seu essa reapropriação insere-se no quadro mais vasto das ligações entre a
quadro analítico privilegiado: a etnia. Se a etnia não existe, afirmavam escrita e a oralidade. Com efeito, nas «culturas orais», a propagação da
implicitamente os antropólogos, o que nos resta para estudar? Se não escrita autentica as pretensões dos actores e, em certa medida, santifica
dispomos de «sujeitos históricos», consideravam, por outro lado, os his- as relações sociais. Nesse aspecto, ter-se-á reconhecido os estudos de J.
toriadores, como veicular as grandes narrativas do continente africano? Goody (1979) e, em concomitância, as respectivas limitações. Nas so-
Ora, o nosso propósito prendia-se com a modificação do modo de olhar ciedades africanas que, desde há vários séculos, estão em contacto com
para o objecto antropológico ou histórico, e não propriamente com a a escrita e, em particular, com uma literatura árabe transmissora das
sua supressão. Aos olhos dos colaboradores do presente livro, afigura- representações oriundas do Antigo Testamento, como garantir que os
va-se notório que a antropologia francesa do pós-guerra, por conta do materiais de campo recolhidos pelo etnólogo ou pelo historiador não
ascendente do estruturalismo, atribuíra ao nome do grupo estudado comportam o rasto de concepções importadas antes da conquista colo-
- ao etnónimo - o estatuto de referente estável ao passo que a socio- nial? A título exemplificativo, os antropólogos apresentam como mar-
-linguística e a pragmática, cujo desenvolvimento se processava à custa ca cultural própria de várias sociedades africanas o modelo que opõe
da linguística estrutural, davam primazia à instabilidade socio-histórica a gente do poder à gente da terra. Talvez seja possível conceber esse
desse mesmo referente. modelo como o produto da integração do conjunto dessas formações
A focalização sobre as «cadeias de sociedades», a «economia-mundo» políticas numa koiné que inclui o Norte de África. O recurso contumaz à
africana pré-colonial e os «espaços coloniais», a importância conferida geomancia obedece, sem dúvida, ao mesmo princípio.
Jean-Loup Amselle e Elikia M'Bokolo (Coord.) Pelos Meandros da Etnia. Etnias, tribalismo e Estado em Africa Prefácio à segunda edição Petos Meandros da Etnia revisitado 15
Uma reflexão dessa natureza acarreta duas consequências. Em primei- A esse respeito, não deixa de ser surpreendente a constatação de que
ro lugar, a importância atribuída à especificidade étnica e ao compara- África - sobretudo a África Central - está, actualmente, a libertar-se de-
tivismo que a mesma suscita conduz à obliteração desse fenómeno de finitivamente do ascendente das dinâmicas geradas pela colonização e
englobamento. Em segundo lugar, é possível que a reapropriação e a das manobras das forças externas, em particular dos antigos coloniza-
reaplicação - sobre as quais os historiadores chamam a atenção dos res- dores, com o intuito de se reintegrar num jogo intrincado de relações e
tantes especialistas em ciências sociais e as quais começam a abalar a poderes locais. Por um lado, África reata a problemática da fronteira e
confiança dos antropólogos - sejam identificáveis com um cruzamento as relações entre os centros e as periferias que a caracterizava antes da
entre um «já existente» incluído num conjunto que transcende larga- conquista colonial. Num continente onde as fronteiras, ainda que reais,
mente a sociedade local estudada, e uma literatura importada. Por se mantêm nimiamente permeáveis e onde os aparelhos de Estado es-
exemplo, no domínio da antropologia política de África, as teorias «lo- tão longe de controlar, como outrora, a totalidade do espaço constante
cais» do poder não se limitariam a uma mera criação colonial resultan- nos mapas, a repetição de cenários antigos afigura-se possível. Ainda
do, ao invés, de uma harmonia entre o binómio gente do poder/gente da que de forma redutora, os últimos são evidenciados em conceitos no-
terra - um binómio introduzido, ou não, pelo islamismo e pela teoria co- vos, como é o caso dos confrontos entre os invasores ruandeses «hami-
lonial da conquista. Por conseguinte, a questão sobre se a importação do tas» ou «etíopes» e os autóctones «bantus», na República Democrática
lugar-comum omnipresente da historiografia francesa - que estabelece do Congo, cujo desfecho, como se sabe, tem uma história relativamente
uma dicotomia entre os francos (gente do poder] e os gauleses [gente onusta (Chrétien, 1997]. Todavia, por outro lado, não se deve reduzir es-
da terra) -, pela acção dos missionários belgas no Ruanda, contribuiu sas evoluções contemporâneas a um mero «reacender» de um passado
para um reforço das categorias locais tutsi e hútu atribuindo-lhes uma colocado entre «parênteses» pela colonização, a qual assumiu o papel de
significação étnica exclusiva, reveste-se de interesse (Pranche, 1995]. «congelador social» asfixiando, cristalizando e, ao mesmo tempo, preser-
Assim, a reapropriação não pode operar-se sobre uma tabula rasa: vando esse passado. Paralelamente à reafirmação e ao regresso em voga
de facto, é necessário pressupor a existência de uma base que encerre, das identidades africanas - desde logo a de «africanos» e de «negros» -,
em linhas gerais, as mesmas características que os elementos recém- a constituição de novas identidades relacionadas com territórios dota-
-acrescentados à estrutura para que o arraigamento seja frutífero. Do dos de fronteiras móveis prossegue, de facto, diante dos nossos olhos:
mesmo modo, a resposta favorável de populações outrora desprovidas identidades «étnicas», como os banyamulenge do ex-Zaire; identidades
de Estado à imagem que lhes é atribuída pelos próprios colonizadores, regionais, como os «nortistas» e os «sulistas» em vários Estados; iden-
deve-se inequivocamente ao facto de que essas já estavam inseridas, ou tidades nacionais, explicadas em debates [re] activados pelas consultas
se inseriam a si próprias, numa rede de relações constituída, entre outros eleitorais democráticas e pela aquisição da nacionalidade dos cidadãos,
elementos, pelo Estado, próximo ou distante. Com efeito, em África, e os «alóctones» e os «autóctones» (Dozon, 1997].
muito antes da colonização, o Estado e as redes comerciais que lhe são
intrínsecas, na qualidade de fontes importantes de registo étnico, im-
A reconstrução do africanismo
primem as suas marcas no espaço que controlam directamente, assim
como nas suas margens e inclusivamente para além delas.
A fase profícua de desconstrução ou desmontagem da noção de etnia
Mais do que ao «todo colonial», Pelos Meandros da Etnia procurava
deve, portanto, seguir-se uma fase de reconstrução de uma ciência so-
responder a uma preocupação de re-historicização, repolitização e
cial africanista empenhada em conduzir uma análise circunstanciada da
reislamização das sociedades africanas. Como tal, visava sobretudo a
questão da etnicidade nas sociedades africanas e, de um modo geral,
antropologia universitária do período colonial francês e inglês, em
no conjunto das sociedades que são da competência da antropologia.
detrimento da etnologia dos administradores coloniais, não obstante o
Doravante, já não se trata de empregar um etnónimo qualquer sem uma
seu contributo para a transformação das categorias sociais africanas em
definição prévia do seu contexto de uso, de modo a verificar-se a
categorias étnicas. De facto, os representantes da escola funcionalista
substituição de uma pragmática das sociedades por um essencialismo
inglesa e da escola de Griuale foram os responsáveis por condensar as
etnológico. Assim, as sociedades africanas podem juntar-se ao coro das
sociedades africanas numa pertença étnica singular, isolando-as das
restantes sociedades e, muito em particular, daquelas que redefinem
redes englobantes em que as mesmas se integravam durante o período
constantemente as condições do debate encetado com elas próprias e
colonial e em que se reintegram actualmente.
Jean-Loup Amselle e Elikia M'Bokolo (Coord.) Pelos Meandros da Etnia. Etnias, tribalismo e Estado em Africa Prefácio à segunda edição Petos Meandros da Etnia revisitado 15
com o exterior, Nesse sentido, a etnologia africanista estriba-se numa For conseguinte, desafiamos esse novo tipo de estudos a proceder a
antropologia do debate social que incide sobre o conjunto da humani- uma redefinição total dos instrumentos de investigação das sociedades
dade. Desde a publicação de Pelos Meandros da Etnia, e independente- africanas, tendo presente que essa mudança epistemológica repercutir-
mente dos nossos projectos individuais (Amselle, 1987; 1990; 1993; -se-á necessariamente no modo como abordamos a nossa própria
1996 e M'Bokolo, 1993, 1995], foram vários os estudos que con- sociedade.
tribuíram deste modo para o aprofundamento da problemática das
construções identitárias em África, entre os quais se destaca a recolha de
textos publicada por M. De Bruijn e H. van Dijk (1997), a qual não se de- A ilusão da miscigenação
bruça sobre uma etnia específica mas antes sobre as relações entre duas
etnias, o que representa um avanço considerável face à abordagem clás- Formulada a propósito do continente africano, a problemática
sica centrada numa só etnia. O estudo das relações entre povos limítro- construtivista da etnia assim como os conceitos que lhe estão asso-
fes cujos laços políticos, económicos e culturais permanentes remontam ciados - miscigenação, crioulidade - é aplicada na Europa e nos Esta-
há séculos constitui o modelo daquilo que deve ser a investigação em dos Unidos no quadro do combate ao racismo e na apresentação de
ciências sociais, ou seja, uma investigação que pratica um compara- políticas alicerçadas no multiculturalismo. A gestão da diferença cul-
tivismo moderado, circunscrito à observação das variações das formas tural efectivamente praticada, numa primeira fase, nas colônias volta a
sociais no seio de um quadro geográfico relativamente bem delimitado. verificar-se actualmente em França, onde contribui para a gestão dos
Todavia, importa superar esse tipo de abordagem pluriétnica orientada sectores delicados da sociedade francesa e a luta contra a ideologia da
para a intelecção de um conjunto de grupos em justaposição. Apesar raça pura desenvolvida pela Frente nacional. Durante as décadas de
de generosa, essa posição multiculturalista não fornece soluções a nível 1980 e 1990, toda uma temática da miscigenação viu assim a luz do dia
dos princípios metodológicos porquanto reproduz o nivelamento que tanto no domínio da comemoração quanto no da publicidade, da moda
está na origem do estabelecimento dos mapas étnicos de África e de e da música (Amselle, 1996). Inspirados por motivos gerais ou simples-
outras regiões do mundo, frisando assim a debilidade do modelo de mente mercantis, os paladinos desse conceito, porém, caíram no erro de
F. Barth (1969) que, ao atribuir à fronteira um lugar central na sua abor- negligenciar a relação estreita entre a idéia de miscigenação - seja ela
dagem, deixa intactos os grupos que a atravessam. desejada ou, pelo contrário, repelida - e uma problemática poligenista
O respeito pelas diferenças culturais e, em simultâneo, a sua fusão emanante da raciologia do século XIX. Assim, visando demonstrar que a
numa humanidade comum assenta na postulação de uma verdadeira integração continua a operar-se no seio da sociedade francesa, os inves-
«crioulidade» de cada grupo étnico ou linguístico (Amselle, 1990; Nico- tigadores bem-intencionados que recorrem aos conceitos «franceses de
lai, 1998), ou seja, na determinação de que a identidade social e indi- cepa» e «estrangeiros» ou às categorias coloniais como, por exemplo, os
vidual é definida tanto pelo fechamento sobre si própria quanto pela mandé, em certa medida, apenas justificam e reforçam esses conceitos,
abertura ao outro, numa palavra, que a identidade é, ao mesmo tempo, acentuando o problema que pretendem resolver por meio da sua inves-
singular e plural. Com efeito, os etnónimos constituem rótulos, estandartes, tigação. Contudo, os críticos dessa abordagem alimentada pela idéia se-
emblemas onomásticos «já existentes» de que os actores sociais se gundo a qual os franceses são, sem excepção, miscigenados e, por con-
apropriam em função das conjunturas políticas que se lhes apresentam. seguinte, o conceito «francês de cepa» é desprovido de sentido, também
Decerto que a vertente «camaleónica» da identidade não é passível de exacerbam, paradoxalmente, o prisma poligenista e racista dessa noção.
ser dilatada ad infinitum, tal como a flexibilidade dos estatutos sociais A semelhança do conceito propínquo de crioulidade, a miscigenação ba-
não é absoluta. Por outro lado - conforme demonstrado por estudos rela- seia-se, de facto, na idéia errônea - e cara à zootecnia - da mistura dos
tivos à etnia e, sobretudo, aos grupos estatuários (castas) - as possibili- sangues ou do cruzamento; concepções, aliás, infirmadas pelas descobertas
dades de acção da estrutura são muito superiores ao que seria de prever da genética mendeliana. Em bom rigor, a possibilidade de conservação
Os actores sociais africanos não permanecem imutáveis no seu estatuto desse termo depende da interpretação da miscigenação enquanto uma
e, tal como se conseguiu demonstrar a maleabilidade das identidades metáfora isenta de qualquer problemática da pureza original e da mis-
étnicas, também é possível ilustrar o facto de que a tripartição homens tura dos sangues e, logo, um axioma que repete ad infinitum a idéia de
livres/escravos/pessoas de casta é uma construção colonial (Conrad e uma indistinção primordial.
Frank, 1995).
Jean-Loup Amselle e Elikia M'Bokolo (Coord.) Pelos Meandros da Etnia. Etnias, tribalismo e Estado em Africa Prefácio à segunda edição Petos Meandros da Etnia revisitado 15
Segundo os seus defensores, a possível introdução de critérios étnicos M'Bokolo, E. (1993]. Afrique noire. Histoire et Civilisations Tome II: XIXe-XXe siècles, Paris, Hatier-
Aupelf.
nos recenseamentos em França - à imagem daquilo que já constitui uma
M'Bokolo, E. (1995]. Afrique noire. Histoire et Civilisations Tome I: Jusqu'au XVIIIe siècle, Paris:
prática nos Estados Unidos - deveria adensar as malhas da rede desti-
Hatier-Aupelf.
nada a circunscrever e a tratar as bolsas da pobreza e da inferioridade.
Mudimbe, V. Y. (1988]. The Invention of Africa, Bloomington: Indiana University Press.
Independentemente do que se possa pensar acerca da sua eficácia, esse Nicolai, R. (1998). «Le songhay de Haut-Sénégal-Niger à aujourd'hui: linéaments », in Amselle j.-L. e
novo dispositivo inscreve-se no quadro do alargamento do domínio Sibeud E. (eds.]. Maurice Delafosse, entre orientalisme et ethnographie: l'itinéraire d'un africaniste
(1870-1926), Paris: Maisonneuve et Larose, pp. 246-253.
dos «biopoderes» implementado no século XIX no campo da demogra-
fia e da epidemiologia [Foucault, 1997). Em caso de aplicação, França
tornar-se-ia, à semelhança dos Estados Unidos, uma nação, em certa
medida, bastante mais «étnica» do que os países africanos que supos-
tamente servem para realçar a sã consciência ocidental. Através de uma
reviravolta curiosa, a expansão colonial, que foi empreendida em nome
da «missão civilizadora» de França, mas que se baseou largamente na
gestão da diferença cultural, retornará agora à sua terra de origem para
instituir um modo de administração das «populações» muito afastado
do modelo teórico que coloca o cidadão perante o Estado.
Jean-Loup Amselle e Elikia M'Bokolo
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Anthropos.
Jean-Loup Amselle e Elikia M'Bokolo (Coord.) Pelos Meandros da Etnia. Etnias, tribalismo e Estado em Africa Prefácio à segunda edição Petos Meandros da Etnia revisitado 15
Introdução
A presente obra reúne reflexões teóricas e estudos de caso sobre o
conceito de etnia e outras noções [tribo, raça, nação, povo, etc.) que
lhe são frequentemente associadas, assim como fenómenos habitual-
mente designados através das expressões «tribalismo», «etnicidade»,
«regionalismo», «nacionalismo tribal», entre outras, no contexto afri-
cano.
Decerto que esses fenómenos não são específicos de África. As
ideologias de autoctonia, os movimentos separatistas, a investigação
e a afirmação de identidades colectivas além das relacionadas com
o Estado-nação, em suma, os particularismos de inspiração cultural
ou política encontram-se, com uma intensidade variável, em diversas
regiões e diversos Estados, desde a América anglo-saxónica à China e
Indochina, passando pela Rússia soviética, a América Latina, o Oriente
Próximo e a Europa. Não é incomum que, por vezes, desencadeiem
revoltas violentas.
No entanto, em nenhum outro lugar invadem, ou parecem invadir,
o domínio político e a esfera intelectual tão intensamente como em
Africa. Trata-se de uma especificidade susceptível de ser explicada por
diversos factos.
Em primeiro lugar, no próprio seio do africanismo, uma longa tradição
científica, centrada na etnologia e na antropologia, identificou-se com
o estudo das etnias, mesmo quando se opunha a qualquer análise séria
do conceito de etnia num silêncio eloquente e comprometedor
Ademais, a maioria das interpretações relativas aos fenómenos
políticos característicos da África contemporânea integraram a etnia,
a par de todos os elementos que dela decorrem, num modelo carac-
terizado por um simplismo cómodo e tranquilizador: classificados
de «modernistas», os movimentos conducentes às independências e
as hegemonias daí resultantes são apresentados como um desejo de
edificação das nações e um esforço orientado para a sua consolidação;
por conseguinte, as várias oposições aos pretensos «Estados nacionais
em construção» são reduzidas a lutas «tribais», sendo que esse tribalismo
é concebido ele próprio como a expressão política da etnia e, geralmente,
Introdução 19
desacreditado na medida em que testemunha a sobrevivência e o re- África tradicional e fossilizadas nas suas estruturas e na sua propen-
crudescimento de arcaísmos pré-coloniais. Um testemunho recente, e são para serem colonizadas. Epígono do pensamento e da política co-
retirado de fonte segura e séria, acerca da extraordinária resistência loniais britânicos de finais do século passado, o regime do apartheid
desses lugares-comuns encontra-se patente na revista Afrique contem- aperfeiçoou essa manipulação: a equiparação das sociedades africa-
poraineK A 1 de Agosto de 1982 houve uma tentativa de golpe de Es- nas às tribos não significa apenas a proclamação da sua «diferença»
tado no Quénia. No artigo que a relata, deparamo-nos com a questão irredutível em relação à sociedade branca - sociedade de classe e
essencial: «Resta procurar compreender por que motivo isso aconte- Estado nacional - mas também a sua despromoção para o nível mais
ceu». A resposta imediata é clara: «Escusado será dizer que, tanto aqui baixo da hierarquia das sociedades humanas; porém, constituí-las em
quanto no Uganda e no Zimbabwe, as premissas étnicas sustentam os sociedades tribais implica também a asseveração de que se encontram
combates políticos, os quais apenas "modernizam" os comportamen- em conflito permanente e a legitimação de uma política sistemática
tos antigos que o período colonial, sobretudo na África inglesa, não de divisão. A essência da política dos bantustões reside precisamente
conseguiu erradicar. Desse modo, descobre-se que os kikuyu, tribo em humilhar, excluir e dividir. Os poderes de Estado da África inde-
ilustre e maioritária no Quénia, se perfilam por detrás dos golpis- pendente, por seu turno, não se limitaram a acolher e a interiorizar a
tas...^». Poder-se-ia apresentar facilmente outros exemplos de varia- visão, os lugares-comuns e os estereótipos da etnologia colonial: a «di-
ções ocasionadas pela vulgata etnicista acerca do modo de discurso versidade tribal» dos Estados africanos serve-lhes de argumento para
científico ou da evidência comum. rejeitar o pluralismo político sob o pretexto de que esse seria apenas
a expressão daquela e, logo, um obstáculo à construção nacional; e o
A fim de assinalar o fosso que separa esses pareceres e os estudos
culto do Estado-nação permite naturalmente uma legitimação dos po-
aqui reunidos, importa esclarecer que os primeiros conduzem a constata-
deres pessoais e das ditaduras oligárquicas; pois os discursos ruidosos
ções análogas cujo teor fora já assimilado por Paul Mercier, há mais de
sobre a unidade nacional são acompanhados, por toda a parte, de uma
20 anos, numa observação que decorre da reflexão sobre o «signifi-
política transformada habilmente em espectáculo, de «doseamentos
cado» do tribalismo: «As oposições étnicas actuais expressam e espe-
étnicos e regionalistas» que permitem ao poder paliar a sua natureza
lham muitos outros aspectos além das diferenças culturais e hostili-
e perpetuar os estereótipos etnicistas.
dades tradicionais, que prosseguirão sob outras formas^».
Outros aspectos? Urge frisar que o debate acerca da etnia e do Na presente obra, tentámos tratar esses aspectos.
tribalismo não é puramente teórico. Desde Lord Frederick Lugard, Em primeiro lugar, urgiu proceder às reclassificações conceptuais
alegadamente do colonialismo britânico, ao regime do apartheid na julgadas necessárias questionando sistematicamente a noção de etnia.
África do Sul, passando pelos poderes de Estado contemporâneos, Jean Fazin, a propósito dos bambara, e Jean-Pierre Dozon, a propósito
todos os sistemas de dominação em África recorreram alegremente dos bété, demonstram que, em matéria de etnias, estamos perante re-
às teorias relativas à etnia, manipulando com astúcia os sentimentos ét- alidades mutáveis: aqui como em qualquer parte, ninguém pertence
nicos. Em 1923, Lord Lugard, influenciado pela abordagem naturalista exclusivamente a uma etnia e tanto os indivíduos quanto os grupos
dos etnólogos da época, propunha «classificar a população da África sociais são, ou deixam de ser, membros de uma dada etnia consoante
tropical em três tipos, de acordo com as estruturas sociais: as tribos o lugar e o momento; em última análise, a etnologia e o colonialismo,
primitivas, as comunidades evoluídas e os africanos europeizados». ansiosos por classificar e nomear, foram os responsáveis pela fixa-
Como se sabe, em países como o Gana, o Quénia, a Nigéria ou o Uganda, ção das etiquetas étnicas, desconhecendo e negando a história. Con-
essas proposições converteram-se em política: humilhações e controlo forme demonstrado por Jean-Loup Amselle, existem assim razões para
minucioso do local dos «africanos europeizados» e das «comunidades «desconstruir o objecto étnico»: com a restauração da história e de
evoluídas» considerados demasiado turbulentos; privilégios de vária uma antropologia dinâmica, parece que os grupos étnicos foram inse-
ordem para as chefarias das tribos primitivas, tidas como símbolo da ridos em unidades mais alargadas - «espaços» - e estruturadas à luz
de factores económicos, políticos e/ou culturais que definiam os «gru-
pos étnicos» conferindo-lhes uma substância particular.
1.«La tentative de coup d'État au Kenya», Afrique contemporaine, n.^ 123, Setembro-Outubro
1982, pp. 14-15. Nesse sentido, os «tribalismos» contemporâneos manifestam ne-
2. Ibid.
cessariamente a etnia. A análise desses fenómenos empreendida por
3. P. Mercier, «Remarques sur la signification du "tribalisme" actuel en Afrique noire». Cahiers
internationaux de sociologie, vol. XXXI, Julho-Dezembro 1961, p. 70.
172 Jean-Loup Amselle e Elikia M'Bokolo (Coord.) Pelos Meandros da Etnia. Etnias, tribalismo e Estado em África Conjunturas étnicas no Ruanda 173