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M Ç T O D OS L Ó G I C OS
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D I A L É C T I C OS
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MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS
MÉTODOS LÓGICOS
E
DIALÉCTICOS
I VOLUME
8.» edição
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LIVRARIA E EDITORA LOGOS LTDA.
Rua 15 de Novembro, 137 — 8" andar — Telefone: 35-6080
SAO PAULO
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l.a edição, outubro de 1959
> o1' 2.a edição, maio de 1962
3.* edição, novembro de 1962
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Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais
de Mário Ferreira dos Santos
VOLUMES PUBLICADOS:
1) Filosofia e Cosmovisão
ADVERTÊNCIA AO LEITOR 2) Lógica e Dialéctica
3) Psicologia
Sem dúvida, para a Filosofia, o vocabulário é de 4) Teoria do Conhecimento
6) Ontologia e Cosmologia
máxima importância e, sobretudo, o elemento etimoló
6) Tratado de Simbólica
gico da composição dos termos. Como, na ortografia
7) Filosofia da Crise (Temática)
atual, são dispensadas certas consoantes ./mudas, en
8) O Homem perante o Infinito (Teologia)
tretanto, na linguagem de hoje), nós as conservamos 9) Noologia Geral
apenas quando contribuem para apontar étimos que 10) Filosofia Concreta I vol.
facilitem a melhor compreensão da formação histó 11) Filosofia Concreta II vol.
rica do termo empregado, e apenas quando julgamos 32) Filosofia Concreta m vol.
conveniente chamar a atenção do leitor para eles. 13) Filosofia Concreta dos Valores
Fazemos esta observação somente para evitar a es 14) Sociologia Fundamental e Ética Fundamental
15) Pitágoras e o Tema do Número (Temática)
tranheza que possa causar a conservação de tal grafia.
161 Aristóteles e as Mutações (Temática)
17) O Um e o Múltiplo em Platão (Temática)
MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS
18) Métodos Lógicos e Dialécticos I vol.
19) Métodos Lógicos e Dialécticos II vol.
20) Métodos Lógicos e Dialécticos IH vol.
21) Filosofias da Afirmação e da Negação (Temática Dialéctica)
22) Tratado de Economia I vol.
23) Tratado de Economia II vol
24) Filosofia e História da Cultura I vol.
25) Filosofia e História da Cultura II vol.
26) Filosofia e História da Cultura III vol.
27) Analise de Temas Sociais I vol.
28) Análise de Temas Sociais II vol.
29) Análise de Temas Sociais ni vol.
30) O Problema Social
NO PRELO:
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS
Este livro foi composto e impresso para a Livraria e Editora LOGOS 31) Tratado de Esquematologia
Ltda., na Gráfica e Editora MINOX Ltda., â av. Conceição, 645 — 32) As Três Criticas de Kant
SAO PAULO 33) Problemática da Filosofia Concreta
A SAIR:
34) Temática e Problemática da Cosmologia EIspeculativa
35) Teoria Geral das Tensões I vol.
36) Teoria Geral das Tensões n vol.
37) Temática e Problemática da Criteriologia
38) Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais I vol.
39) Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais n vol.
40) Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais m vol.
41) Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais IV vol.
42) Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais V vol.
Í N D I CE
Os volumes subsequentes serão oportunamente anunciados.
OUTRAS OBRAS DO MESMO AUTOR:
— «O Homem que Foi um Campo de Batalha> — Prólogo de * Von
Prefácio 13
tade de Potência», de Nietzsche, ed. Globo — Esgotada
— «Curso de Oratória e Retórica» — 8» ed. A Lógica e a Dialéctica 19
— «O Homem que Nasceu Póstumo» — (Temas nietzscheanos) —
— «Assim Falava Zaratustra» — Texto de Nietzsche, com análise A Primeira Operação do Espírito 29
simbólica — 3» ed.
— «Técnica do Discurso Moderno» — 5.= ed. Do Conceito 40
— «Se a esfinge falasse...» — Com o pseudónimo de Dan Andersen
Do Termo 47
— Esgotada
— «Realidade do Homem» — Com o pseudónimo de Dan Andersen Dos Universais 51
— Esgotada
— «Análise Dialéctica do Marxismo» — Esgotada Dos Categorias (A Substância) 57
— «Curso de Integração Pessoal» — (Estudos caracterológicos) —
5.a ed. Da Qualidade Predicamental 62
— «Práticas de Oratória» — 2» ed.
A Segunda Operação do Espirito — Das Proposições 69
— «Assim Deus falou aos Homens» — 2* ed.
— «Vida não é Argumento» Exame Dialéctico das Relações Entre o Sujeito e o Predicado . . 81
— «A Casa das Paredes Geladas»
— «Escutai em Silêncio» Da Suplência 105
— «A Verdade e o Símbolo»
— «A Arte e a Vida» - Exame Dialéctico dos Conceitos Universais 124
— «A Luta dos Contrários» — 2» ed.
Dialéctica do Conceito 135
— «Certas Subtilezas Humanas» — 2» ed.
— «Convite à Estética» Da Terceira Operação do Espírito do Raciocínio 163
— «Convite à Psicologia Prática»
— «Convite à Filosofia» Do Silogismo — Exame Sintético 166
— «Páginas Várias»
Exame Analítico do Silogismo 173
A PUBIJCAR:
l.a Figura 177
— «Hegel e a Dialéctica»
— «Dicionário de Símbolos e Sinais» 2.a Figura 183
—- «Discursos e Conferências»
— «Obras Completas de Platão» — comentadas — 12 vols. 3.a Figura 185
— «Obras Completas de Aristóteles» — comentadas — 10 vols.
— «Origem dos Grandes Erros Filosóficos» •i.a Figura 187
TRADUÇÕES: õ.a Figura 189
— «Vontade de Potência», de Nietzsche
Reducção à Primeira Figura 191
— «Além do Bem e do Mal», de Nietzsche
— «Aurora», de Nietzsche Métodos Práticos do Silogismo 193
— «Diário Intimo», de Amiel
— «Saudação ao Mundo», de Walt Whitman Comentários Finais 200
12 MÃRIO FERREIRA DOS SANTOS
Alguns Silogismos Defeituosos Quanto ã Forma 204
Da Eqiiipolência 208
Das Conversões das Proposições (Juízos) 211
Reducção Indirecta ao Impossível 217
Dos Juízos Modais 221
Dos Silogismos Hipotéticos 226
Os Chamados Silogismos Disjuntivos 235 P R E F Á C IO
Do Dilema 238
Do Método 241
Exemplo do Método Heurístico 243 Esta obra nasceu da convicção de uma necessidade pe
Classificação do Método 251 culiar ã nossa época. Ninguém pode negar, ao examinar o
espetáculo moderno, que a inteligência humana afunda-se
nas brumas da confusão que invade todos os sectores. Nun
ca se pensou de modo tão heterogéneo e tão vário, nunca as
ideias mais opostas estiveram tão vivas em face umas de
outras, e também nunca opiniões tão descabeladas conse
guiram impor-se a vastos círculos intelectuais, como se ve
rifica em nossos dias.
Na verdade, se observarmos com cuidado ás causas de
factos que tanto entristecem os que desejam uma humani
dade mais sã, temos que debitar tal estado de coisas à fraca
maneira de pensar do homem moderno, que facilmente se
enleia nas teias de aranha de abstrusas ou de falsas ideias,
e acaba por perder o norte, e desviar-se por caminhos que.
cada vez mais o afastam do que desejaria alcançar. Esse
estado de crise intelectual, que delineamos em "Filosofia da
Crise", é a causa, sem dúvida, do desespero que domina
muitas consciências.
O surgimento desta obra tem, entre muitos, o intuito de
contribuir, dentro das nossas forças, para sanear o pensa
mento e os modos de pensar, a fim de permitir que cada
um possa guiar a si mesmo na busca do que há de mais
elevado, e que tanto lhe oprime o coração e desafia a inte
ligência.
Esta obra, que é simultaneamente de Lógica e de Dialéc
tica, de Lógica porque examina o que há de positivo na ve-
I-J MAllIO KKUItlCMlA DOS SANTOS MÉTODOS LÓGICOS E DIALÉCTICOS 15
lha lógica clássica, e de Dialéctica, porque traz as mais só-
no emprego do velho modo de pensar, que em muitos mé
lidus contribuições que o raciocinar de nossos dias cons
todos modernos, que não podem sequer prescindir deles.
truiu, tem a finalidade, também, de permitir a construcção
Contudo, não queremos negar certa contribuição moderna.
de um raciocinar concreto, mas fundado na solidez do que
Inegavelmente, a Dialéctica, como é entendida hoje, tem ofe
de maior a humanidade já conquistou. Tratamos, nela, dos
recido meios para evitar o raciocinar abstractista, e permi
conceitos, dos juízos, do raciocinar discursivo, das oposi
tir um mais sólido raciocinar concreto. Mas, tais contri
ções, tão importantes na Lógica, das relações que se formam
buições vêm envolvidas com muitos erros, com muitas fal
entre os métodos lógico-formais e os dialécticos-ontológicos,
sas proposições, e métodos deficitários e insuficientes, que
sempre com o intuito de fornecer ao leitor os meios já con
foram superados, com antecedência, por métodos que o
densados, seleccionados para um uso mais fácil, dentro, na
tempo guarda em seu passado, e que a ignorância de muitos
turalmente, dos limites que o raciocinar humano permite.
não permite deles tomar conhecimento, nem sequer saber
Demoramo-nos, sobretudo, no estudo das distinções, que usá-los.
tanto celebrizaram os escolásticos, e o fizemos por razões
Este livro surgiu com a finalidade de oferecer ao estu
ponderáveis.
dioso moderno o que havia de mais sólido e aproveitável
É sem dúvida o uso das distinções uma das grandes con para o recto pensar. Sabemos que o homem de hoje, ante
quistas da lógica escolástica e pertence ao cabedal das gran o frenético de sua vida, não dispõe do tempo de que dispu
des realizações filosóficas do ocidente. Não há a menor nham os antigos para dedicar-se a um estudo mais demora
duvida de que o emprego das distinções exige urna acuidade do dos métodos de raciocinar, de reflectir. Esta a razão por
capaz das mais profundas e raras subtilezas. A verdade é que julgamos que seria de bom alvitre reunir, numa obra
que todo saber, como toda ciência, é um hábito que se ad manuseável, o máximo das regras úteis, procurando, sempre
quire, e o exercício continuado permite que a acuidade seja que possível, a demonstração imediata, a fim de favorecer
constantemente despertada e desenvolvida, favorecendo a a realização de um desejo que anima vivamente a todos.
capacidade de distinção. Aqueles que são dotados de men
Por outro lado, não é de admirar a ignorância que exi
te filosófica têm naturalmente maior facilidade para ver dis
bem muitos sobre as grandes contribuições do passado.
tintamente onde outros vêem confusão. Contudo, essa ca
Basta que se examine a França, que é um país tido como
pacidade, que parece inata, pode ser alcançada também atra
vés do esforço pessoal. imensamente culto, e por alguns até como o mais culto do
mundo. Pois bem, aí, cerca de 90% dos professores das es
colas superiores são ateus declarados. Como tais, afastam-
A pouca familiaridade do homem moderno, pretenciosa-
-se sistematicamente do estudo da obra dos medievalistas,
mente culto, com a escolástica, é a causa, sem dúvida algu
com um gesto despectivo e de suma auto-suficiência. A
ma, do pensar ser tão deficiente, e de alguns se julgarem
maior parte, ante a impossibilidade de conseguir qualquer
outros colombos, quando, na verdade, são apenas descobri
fundamento para as suas afirmações, falhos de um exame
dores de velhas formas, já valorizadas pela ancianidade.
mais sólido do que constitui o campo do saber, tornam-se
As chamadas contribuições modernas à Lógica não têm agnósticos, ou cépticos, e insuflam na juventude um cepti
o valor exagerado que lhes emprestam seus autores. E en cismo que já está dando seus frutos. Essa juventude sem
contramos maior segurança, maior âmbito e maior firmeza firmeza em suas ideias é presa fácil de qualquer barbarismo
16 MÁRIO FERREIRA. DOS SANTOS MÊTODOS LÓGICOS E DIALÉCTICOS 17
cultural (perdoem a aparente contradição), e sem fé, nem tura, a erudição sem profundidade, a valorização da memó
confiança em si mesma, entrega-se ao imediatismo mais ria mecânica, do saber de requintes superficiais, a improvi
torpe e, o que é mais deplorável, torna-se inapta a realizar sação das soluções já refutadas, a revivescência de velhos
obras superiores. Não é, pois, de admirar que mais de du erros rebatidos e apresentados com novas roupagens. Tu
zentos anos de pregação céptica e agnóstica tenham de al do isso é de espantar.
cançar o estado a que assistimos: um deserto que cresce ca
Por essa razão estamos certos de que nossa obra cum
da vez mais, dentro dos homens e à sua volta, uma ausência
pre um papel: a de oferecer meios aos bem-intencionados
quase completa das obras de valor que enobreceram o pas
para que possam seguir, pelos caminhos mais seguros, em
sado. Nunca houve tantas universidades, tantas escolas;
busca de conhecimentos mais sérios, e para que possam
nunca se publicaram tantos livros, também nunca uma li
mais facilmente encontrar melhores soluções para os pro
teratura foi tão frágil, tão sem expressão como a de nossos
blemas intelectuais que os afligem. E esses meios consti
dias. Desapareceram do cenário da filosofia os gigantes que
tuem, constructivamenté, o que chamamos de dialéctica con
ponteavam os caminhos do passado. Alguns, deficitários,
creta. (1).
atiçam-se numa luta sem quartel contra a Filosofia, negan-
do-lhe valor, porque não lhes dá ela o conhecimento da Mário Ferreira dos Santos
verdade integral, expressão que anda em tantos lábios. An
tes de falarem na verdade integral, deviam eles perguntar a
si mesmos que entendem por verdade. E o mais espantoso,
em tudo isso, é que se tal pergunta lhes é feita, logo respon
dem que não sabem o que é, e alguns, para revelar maior
talento, aproveitam a passagem do Novo Testamento, quan
do Pilatos perguntou a Cristo o que era verdade. Cristo não
respondeu, nem poderia responder. A pergunta de Pilatos
denunciava-o. Quem faz tal pergunta, revela, desde logo,
ignorância. A melhor resposta só poderia ser o silêncio e o
volver do rosto. Foi o que Cristo fêz.
O que temos de fazer hoje é construir. Na realidade, o
espírito destructivo, o demoníaco, vence em quase todos os
sectores deste período histórico que vivemos e, sobretudo, (1) Procuramos nesta obra reunir passagens de autores diversos,
de reconhecido valor e critério, com o intuito de oferecer ao leitor a
neste século, que talvez seáa cognominado pelos vindouros maior soma possível de conhecimentos distintos e não confusos, que
"século da técnica e da ignorância", porque se há nele lhe permitam manejar com segurança o pensamento, e evitar cair nos
velhos, nos cediços erros que tantos males já produziram e bastante in
um aspecto positivo, que é o progresso da técnica, que chega
felicitaram a humanidade.
até às raias da destruição, a ignorância aumenta desespera- Fimdamo-nos nas obras de conspícuos autores, despreocupados em
apontar a autoria dos argumentos e distinções, porque eles já formam
doramente, alcançando limites que a imaginação humana
património do acervo cultural da humanidade. Ademais, seria difícil,
nem de leve poderia prever. Mas, o que é mais assombroso se não impossível, estabelecer com segurança a paternidade das objec
é a auto-suficiência do ignorante, o pedantismo da falsa cul- ções e das soluções, pois repetem-se elas em obras diversas, de tendên
cias as mais variadas.
A LÓGICA E A DIALÉCTICA
No sentido aristotélico-tomístico, a Lógica é a arte de
dirigir o próprio acto da razão, no que se refere ao homem,
de modo a ordená-lo a facilmente proceder sem erros. Exis
te, assim, uma lógica natural, a qual decorre do poder na
tural do intelecto humano, em sua actividade raciocinadora,
«; uma lógica artificial (ou artificiosa), que é constituída pe
los hábitos adquiridos pelo intelecto já por estes classifica
dos, divididos, ordenados para a consecução dos bons ra
ciocínios.
Para atingir uma ciência em estado perfeito, é impres
cindível a Lógica. Sem ela, o homem alcança apenas uma
ciência em estado imperfeito.
O conceito de ciência implica um conhecimento certo
e evidente. Pelo simples acto de raciocinar, essa ciência não
nos está garantida. Para que alcancemos a ciência em es
tado perfeito — porque não basta apenas a plena notícia do
objecto pertencente ao conhecimento, mas a capacidade de
discorrer sobre êle sem receio de erros — impõe-se o estudo
da arte de pensar. A ciência em estado imperfeito pode
levar a conclusões falsas, embora partindo de princípios de
per si evidentes e certos. Todos esses percalços, que sofre
o homem no seu peregrinar através das ideias, levou-o a
preocupar-se com os meios mais hábeis que lhe permitam
o exame seguro do pensamento, e palmilhar o caminho do
bom raciocínio, sem o perigo dos erros que possam afastá-
lo da verdade. Para os escolásticos, a Lógica é necessária
para alcançar a ciência em estado perfeito. Alguns afirmam
MfcTOlJOtí LOCICOS K DIALÉCTICOS 21
20 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS
rugias e normas alcançadas, justificadas pela experiência.
que pode o homem alcançar a verdade sem a Lógica, como,
í-: um hábito operativo, regulado por normas certas e deter
por exemplo, os conimbrenses; mas os tomistas afirmam que,
minadas, e tendente a um fim: o raciocínio sem erros. É
sem ela, é impossível um conhecimento em estado perfeito.
inegável, como se vê na teoria do silogismo, que, obedecidas
Ora, desde logo, surge-nos uma pergunta, cuja resposta as regras fundamentais, é impossível o erro, o que demons
permitirá concluir com segurança quanto aos postulados que tra haver um conhecimento certo e evidente na Lógica, que
acima descrevemos. é o que lhe dá as características de ciência. É ela uma ar
te, e também uma ciência. Aristóteles a considerava a arte
A pergunta é a seguinte: existe realmente a Lógica?
de inquirir, a qual, fundando as demonstrações, tornava-se,
E se existe, é realmente necessária, ou não? afinal, uma ciência demonstrativa.
Como ciência, a Lógica tende a estabelecer normas uni
Como este livro é uma obra de metodologia dialéctica,
versais de raciocínio. Classicamente, o seu objecto é o ente
e pretende dar a quem o consulte os meios hábeis para exa
dii razão. Este objecto formal existe objectivamente no in
minar os pensamentos, analisar os raciocínios e os meios
telecto, mas fundamentado nas coisas.
de conhecimento neste âmbito, poucas serão as vezes era
que seremos forçados a penetrar no sector teórico, a fim Os escolásticos consideravam como ente de razão aque
de demonstrar a validez de nossas afirmativas, pois, do con le que apenas existe objectivamente no intelecto, assim como
trário, transformaríamos este livro numa Filosofia da Lógica o conceito de espécie, de género. Mas, tais conceitos têm
e da Dialéctica, e nos afastaríamos do fim almejado. Con um fundamento in re, porque se são carentes de uma enti
tudo, é inegável que, no proceder raciocinativo do homem, dade própria, se não existem de per si, não se lhes pode ne
surgem inúmeras ocasiões em que o pensamento não só gar positividade, pois referem-se ao que há em comum na
vacila como claudica, a ponto de erros parecerem aos menos natureza.
avisados como verdades definitivas. O aspecto subjectivo Há, ainda, outros conceitos de razão, com fundamento
da evidência, que se funda numa convicção, na adesão fir in re, que se caracterizam pela privação de ser, como, por
me do nosso espírito sem vacilações e sem temor de errar, exemplo, os conceitos treva, sombra, nada, os quais não
e que muitos confundem com a fé, termina, em face do su têm nenhuma existência, senão na razão, mas possuem posi
ceder dos factos ou do próprio raciocínio, por revelar que tividade por referência, com fundamento in re, consistente
a verdade que vivêramos ocultava um grave erro. Tudo aquela na carência, na privação de alguma coisa que é. O
isso justifica e valoriza o imenso trabalho através da ronda conteúdo concreto de tais conceitos da razão foram por nós
dos séculos, que empreenderam os grandes filósofos na bus devidamente examinados em Filosofia Concreta, e esta ma
ca afanosa de encontrar regras e normas seguras que permi neira de visualizá-los é de magna importância para o exame
tissem um raciocínio isento, tanto quanto possível, de erros. dialéctico, como veremos.
A Lógica justifica-se pela própria deficiência humana. E se
A Lógica Formal ordena os conceitos de modo mera
ria ingenuidade afirmar que esse conjunto de conquistas
mente formal, abstraindo-os da matéria, enquanto a Lógica
não constituísse já um corpus logicum tão útil ao homem
Material ordena-os, repondo-os na matéria.
que se dedica à perscrutação do que a natureza, e êle mes
mo, lhe ocultam aos olhos e até à inteligência. Não é, assim, A Lógica é uma ciência prática e especulativa para mui
a Lógica um mero hábito, mas a reunião coordenada das tos, e apenas especulativa para outros. Diz-se que á prá-
22 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS MfiTODOS LÓGICOS E DIALÉCTICOS 23
tico o que tende para a obtenção de um fim eficiente; por dievalistas, foram superados pelas contribuições que lógicos
sua vez, o especulativo tende apenas para uma cognição. modernos ofereceram. Essa ingénua (se é que há ingenui
Enquanto o prático faz, o especulativo tende ao saber. Nes dade) confusão deve-se, em grande parte, à maior ou menor
se sentido, a Lógica seria especulativa. É inegável que é ignorância sobre os trabalhos do passado.
ela uma arte prática, mas eminentemente especulativa.
É um grave erro confundir o processo filosófico media-
O objecto da Lógica é o ente de razão lógico. Ora, o valista como sendo apenas um processo da filosofia católica.
ente de razão é o que existe apenas no intelecto. Mas se tal Realmente, se os filósofos desse período devotavam-se pre
ente não tem um correspondente fundamento in re, é êle ferentemente à justificação filosófica dos dogmas da Igreja,
passível de dúvida quanto à sua validez. Esta é a razão é preciso, no entanto, não esquecer que a Filosofia, como tal,
por que a Lógica Formal exige providências analíticas poste prosseguia, e realizava a mais completa análise que o homem
riores, sob pena de perder-se num logicismo perigoso. Esse
jamais fêz em qualquer tempo.
fundamento surge na lógica clássica com o nome de segun
das intenções. Essas segundas intenções do ente são pro Se o filosofar se deu, nesse período, dentro do âmbito
priamente, o lógico, o objecto formal da Lógica, que se fun da Igreja Católica, é preciso não esquecer, sobretudo aqueles
da na relação de razão. Entre essas segundas intenções, po que dela se afastam ou que a combatem, que a filosofia con
demos distinguir: os conceitos, que surgem da primeira ope tinuava, e não sofreu nenhuma solução de continuidade. Se
ração do espírito; o juízo, que constitui a segunda operação; Tomás de Aquino, como católico, pode causar arrepios ao
o raciocínio e a argumentação, que são a terceira operação. moderno descrente e adversário da Igreja, não pode este, se
honestamente se preocupar com os temas de filosofia, dei
Podemos agora comparar a Lógica com a Dialéctica no
xar de reconhecer o grande valor como filósofo daquele que
sentido que a usamos, pois a demonstração da sua validez
foi, sem dúvida, um dos maiores que a humanidade conhe
já foi por nós realizada em "Lógica e Dialéctica". A segun
ceu. Nota-se, em obras de autores modernos, como enciclo
da não exclui a primeira, como o demonstramos na obra ci
pédias filosóficas, dicionários, etc, um tratamento simples
tada. Contudo, tem ela um outro papel, que consiste em
mente absurdo quando se referem às seguras figuras do pas
procurar outras vias para o raciocínio, sem deixar de apli
sado, em paralelo às duvidosas mentalidades modernas. Es
car as normas da Lógica Formal. A Dialéctica realiza, as
panta a quem se dedica ao estudo da Filosofia, e não apenas
sim, uma operação através de diversas vias pensamentais, e
de um período desse processar, que figurem em dicionários
busca dar uma solidez concreta à Lógica, evitando os peri
um Bergson ou um Gabriel Mareei ou um Schopenhauer
gos do logicismo. Propriamente tem ela essa finalidade, por
com proporções mais avantajadas que um Tomás de Aquino,
que o logicismo, devido à acentuação do abstractismo, pode
ou um Duns Scot, ou um Suarez, ou um São Boaventura.
levar o homem a tomar como ente real, e existente de per si,
O desconhecimento quase total da obra de tais autores é a
o ente puramente de razão. A aplicação da Dialéctica é as
sim completiva e eminentemente concreta. É o que demons culpa da confusão e da ingénua afirmativa de alguns moder
traremos a seguir, depois de analisar o conceito para a Ló nos, que apresentam como novas contribuições velhas ver
gica Formal. dades já sabidas desde os gregos, ou, então, afirmam, como
novos problemas, velhos erros já refutados com a antecedên
É um dos preconceitos mais arraigados na modernidade
cia de séculos.
o de julgar-se que os trabalhos lógicos, realizados pelos me-