Table Of ContentBERTOLT BRECHT
TEATRO COMPLETO
em 12 volumes
3• Edição
EfJ
PAZ E TERRA
'T
Mãe Coragem e seus Filhos
Uma crônica da guerra
dos trinta anos
Mutter Courage und ilire Kinder
Escrita em 1939
Traduçilo: Geir Campos
PERSONAGENS
(por ordenÍ de entrada em cena)
RECRurADOR
PluMEnto SÁRGENTO
MAl! CoRAGEM
KATilUN, A FII.HA MUDA
ElllF, O FilHO MAIS VBLHO
Qtmunmo, O FilHO MAIS MOÇO
CoznmmRo
GENERAL
CAPml.o
Almuu!mo
YVETil! POTilER
SEGUNDO SARGENTO
CAolHO
CoRONEL
EscltEvENrE
.AU'EREs
SolDADOS
CAMPoNESES
VELHA
JOVEM CAMPDN!s
- Redação: Eisabeth Hauptmann e Rosemarie Hill.
1
PRIMAVERA DE 1624. EM DALARNE, O GENERAL OXENS1]ERNA
RECRUTA TROPAS PARA A CAMPANHA DA POLÔNIA. A VIVA N
DEIRA ANNA FIERllNG, CONHECIDA PELO APELIDO DE MÃE
CORAGEM, FICA SEM UM DE SEUS FilHOS
Numa estrada perto da cidade
Um Sargento e um Recrutador parados, com frio.
REcRurADOR-Como é que se pode reunir uma tropa num lugar como
este? Sargento, pode crer: eu até em suicídio já pensei. Até o dia
12, tenho de apresentar ao general quatro pelotões, mas· o
pessoal deste lugar é tão arisco que eu não tenho mais uma noite
de sono. A muito custo a gente agarra um, faz vista grossa para
não ver que tem espinhela caída e varizes, a gente dá um porre
no cara, ele assina a guia, a gente paga a cachaça, e aí o cara diz
que precisa ir lá fora. A gente desconfia, e corre para a porta:
não dá outro bicho, o cara sumiu que nem piolho embaixo da
unha. N"ao tem palavra de honra, nem lealdade, nemfé: foi neste
lugar, Sargento, que eu perdi a minha confiança na humanida
de.
SARGENTO-Logo se vê que há muito tempo não há guerra por aqui.
De onde vem a moral, pergunto eu? A paz é uma porcaria, só a
guerra é que estabelece a ordem. Na paz a humanidade brota
que nem espiga. É um desperdício de gente e de gado, assim
sem mais nem menos. Cada um come o que quer: um pedaço
de queijo no pão, epotcimado queijo uma talhada de toucinho.
Quantos homens jovens e quantos cavalos bons existem na
cidade, isso ninguém sabe: nunca se fez a conta. Eu já estive em
lugares onde não se fazia guerra há uns setenta anos: as pessoas
nem sobrenome tinham, nem sabiam quem elas eram. Só onde
há guerra é que se põem os registros e as listas em ordem, os
sapatos em furdos e o trigo em sacos, as pessoas e as cabeças de
gado são bem contadinhas e levadas, pois todo mundo sabe:
sem ordem não há guerra!
REcRurADOR-Isso é verdade!
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Bertolt Brecht Mãe Coragem e seus filhos 177
SARGENTo - Como tudo que é bom, a guerra também é difícil, no De panças cheias, vão para o diabo,
começo. Mas, depois que começa a florescer, ela resiste a tudo; E até a minha bênção eles têm!
e as pessoas começam a tremer, só de pensar na paz, como os É primavera. Acorde, homem de Deus!
jogadores, que não querem parar, para não terem de fazer as A neve se derrete. Estão dormindo
contas do que perderam. Mas no começo têm medo da guerra: Os mortos. Que se agüente nos sapatos
é sempre uma coisa que não conhecem. Aquele que não está morto ainda!
REcaurADOR-Olhe, vem vindo aí uma carroça. Duas mulheres e dois SARGENTO-Alto, gentalha! A quem vocês pertencem?
marmanjões. Sargento, faça essa velha parar! Se não arranjar
desta vez, uma coisa eu garanto: não fico mais aqui, com esse Eilif-Segundo Regimento Finlandês.
vento.
Ouve-se uma gaita de boca. Puxada por dois rapazes, a}Jrox{ma SARGENTO-Seus documentos!
se uma carroça. Nela sentadas Mãe Coragem e Kattrin, suaf ilha
muda.
Mãe Coragem-Documentos?
Mãe Coragem-Bom-dia:, senhor Sargento! Queijinho -Essa é a Mãe Coragem!
SARGENTO barrando-lhes a passagem - Bom-dia, gente. Quem são SARGENTO-Mãe Coragem? Eu nunca ouvi falar. Por que esse nome?
vocês?
Mãe coragem-Me chamam de Coragem, Sargento, porque uma vez,
MÃE CoRAGEM-Gente de negócios. Canta- para escapar da falência, eu atravessei o fogo da artilharia de
Riga, com cinqüenta pães na carroça; eles já estavam dando
Seu Capitão, faça o tambor calar
bolor, não havia tempo a perder, e eu não tinha outro jeito.
E deixe a soldadesca descansar:
Mãe Coragem vem trazendo os sapatos
SARGENTO-Nada de gracinhas, ouviu? Onde estão seus papéis?
Com que eles podem melhor caminhar.
Se com piolhos e com outros bichos,
MÃE CoRAGEM apanha numa lata um maço de papéis e desce da
Levando cargas e canhões de arrasto,
carroça - Tudo o que tenho de papel é isto, Sargento: um
Eles têm de marchar para a batalha,
missal de Altõtting, inteirinho, para embrulhar pepinos; e uni
Pois que marchem calçando bons sapatos!
mapa da Morávia, sabe Deus se algum dia :linda vou lá; se não,
É primavera. Acorde, homem de Deus!
fica para os gatos; e aqui um atestado de que o meu cavalo
A neve se derrete. Estão dormindo
branco não tem febre aftosa, pena ele ter morrido, com os
Os mortos. Que se agüente nos sapatos quinze florins que ele custou, mas não a mim, graças a Deus.
Aquele que não está morto ainda! Não é muito papel, hein?
Seu Capitão, seus homens vão marchando
Para a morte, sem nem uma salsicba:
SARGENTO-Está querendo me passar a perna? Faço você engolir o
Deixe que Mãe Coragem trate deles
atrevimento. Sabe muito bem que precisa ter uma licença.
Com vinho para o corpo e para a alma.
. Um canhonaço em barriga vazia,
MÃE CoRAGEM -Fale direito comigo, e não diga, na frente de meus
: Seu Capitão, não pode fazer bem:
filhos ainda crianças, que estou querendo passar-lhe a perna:
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isso não é coisa que se diga, e eu não quero nada com o senhor. embaralhe as coisas, senão vamos ficar nisto até o fim da noite.
Minha licença, no Segundo Regimento, é a honestidade que eu Ele é de pai suíço, mas o sobrenome é Pejos, que não tem nada
trago escrita na cara: se osenhornãosabeler, eu não posso fazer a ver com o pai: o pai tinha outro sobrenome, era mestre-de
nada. Que ainda me queiram pôr uma estampilha isso eu não obras de fortificações e o tipo do beberrão.
admito. '
Queijtnho, satlsfeUo, Jaz que stm com a cabeça, e até KaUrln, a
muda, se dtverte.
REcaurADOR - Sargento, eu estou vendo nessa criatura um certo
espírito de rebeldia. No acampamento, gostamos de disciplina.
SARGENTO-Como é que ele pode se chamar Pejos?
MAE CoRAGEM-Eu pensei que gostassem de salsichas. MAE CoRAGEM-Não quero fazer pouco do senhor, mas a imaginação
não é o seu forte. É natural que ele se chame Pejos, porque,
SARGENTO-Como se chama?
quando veio ao mundo, cu andava com um húngaro para quem
tanto fazia: sofria dos rins, embota nunca tivesse posto na boca
MAE CoRAGEM-Anna Fierling.
uma gota de bebida, um sujeito muito honrado. O menino saiu
a ele.
SARGENTO-O sobrenome de todos é Fierling, então?
SARGENTO-Mas não era o pai, era?
MAE CoRAGEM-Como assim? Eu sou Fierling, eles não.
MAE CoitAGEN - Só sei que saiu a ele. E eu chamo o menino de
SARGENTO-Imagino que são todos seus filhos. ..
Qucijinho, porque é uma gostosura puxando a carroça. Aponta
para a ftlha. Ela é metade alemã, e se chama Kattrin Haupt.
MAECoRAGEM-São,eporissotodoshãodeteromesmosobrenome?
Apontando_ o .f!lho ~fs_ velho, Eilif - O nome dele, por
SARGENTO-Devo dizer que é uma bela família.
exemplo, e Eilif NoJócki, porque o pai dele dizia sempre
chamar-se Kojócki ouMojócki. O menino lembra-se muito bem
do pai, só que é de um outro que ele se lembra: um francês de MAE CoRAGEM -Pois é, já andei por este mundo todo com a minha
carroça.
barbicha no queixo. Mas do pai ele herdou a inteligência: pai
0
era capaz de tirar as calças de um camponês, sem· que ele
percebesse. E assim, cada um de nós tem sobrenome diferente. SARGENTO-Tudo isso tem deseranotado.Escreve. Você é de Bamberg,
e está na Baviera: como foi que chegou até aqui?
SARGENTO-Um sobrenome para cada um?
MAE CoRAGEM-Eu não podia ficar esperando a guerra ter a gentileza
MAE CoRAGEM-Ora, Sargento: até parece que nunca viu disso. .. de ir até Bamberg.
SARGENTO-Aquele, então, é filho de chinês? Aponta o mais moço. REcaurADOR-Euachoque os dois rapazes deviam se chamar Boi-Jacó
essa
e Boi-Esaú, atrelados assim a carroça. Não largam a canga
MAE CoRAGEM-Errou: é de um suíço! nUÍlca?
SARGENTO-Foi depois do francês? Eilif-Mãe, posso fechar o bico desse cara? Eu gostaria. ..
MAE CoRAGEM,- Que francês? De francês eu nunca soube. Não MAE CoitAGEN - Mas eu não quero. Fique quieto aí! E agora, meus
180 Bertolt Bn;cht Mãe Coragem e seus fiUtos 181
senhores oficiais, não precisam de uma boa pistola ou de uma é que você tem contra o serviço militar? Não era soldado, o pai
fivela nova? Sargento, a sua já está pedindo reforma! dele? E não tombou no cumprimento do dever? Foi você mesma
quem disse.
SARGENro-Eu ando atrás é de uma outra coisa. Vejo esses moços
crescidos como dois cedros, peitos robustos, pernas vigorosas: MÃE CoRAGEM- Ele é apenas uma criança. Vocês querem tirá-lo de
gostaria de saber por que é que fogem do serviço militar! mim, para o matadouro: eu conheço vocês. Vão receber cinco
florins por ele.
MAE CoRAGEM prontamente-Nada feito, Sargento: filho meu não é
para o oficio da guerra. REcaurADOR-Primeiro ele vai ganhar um lindo boné e umas botas de
cano alto, não é?
RECRtrrADOR-Mas porque não? A guerra dá lucro e dá glória. Vender
borzeguins baratos é negócio de mulher.AEilif-Dê um passo EwF-Do senhor, não.
à frente, e deixe-me apalpar: quero ver se tem musculatura ou
se é um frangote... - MÃE CoRAGEM-Isto é o que o pescador diz à minhoca: "Vai com o
anzol!". A Qtu!ljinho - Corra e grite que estão roubando seu
MÃE CoRAGEM - Í! um frangote. Se alguém olha para ele um pouco irmão!Empunhaumafaca.Agoralevem-no,setâncoragem!
mais, ele é capaz de cair. Canalhas, eu acabo com vocês! Vão ver a guerra que querem
fazer com ele! Vivemos honestamente, vendendo presunto e
roupa branca, e somos gente de paz!
RECRurADOR-Í!, mas na queda ele derruba um touro, se estiver no
caminho, hein? Tenta levar o rapaz.
SARGENT<>-Í!, bastaolharessafaca, parasevercomovocêssão de paz.
MÃE CoRAGEM - Quer deixar meu filho em paz? Ele não serve para Devia ter vergonha nessa cara. Jogue fora essa faca, sua bruxa!
Até aqui vpcê deu a entender que vive da guerra, e agora quer
vocês.
viver de quê? Como pode haver guerra sem soldados?
RECRurADOR-Ele me faltou com o respeito, chamou minha boca de
MÃE CoRAGEM-Mas os soldados não precisam ser meus filhos.
bico. Nós dois vamos lá no campo, resolver este caso como
homens.
SARGENro-Para você, então, a guerra há de roer os ossos e deixar a
carne? Você engorda as suas crias com a guerra, e não quer dar
EwF-Não se p~pe. Mãe: eu tomo conta dele.
nada em troca? Ele precisa saber de onde é que vem a comida.
E você, que tem nome de Coragem, está com medo da guerra,
MÃE CoRAGEM -Quieto aí! Seu brigão! Já estou vendo tudo: ele tem que é o seu ganha-pão? Seus filhos não têm medo, vê-se logo• ..
uma faca na botina, vai matar o senhor.
EWF-·Não tenho medo de guerra nenhuma!
RECRurADOR-Eu tiro a faca, como se fosse um dente de leite: vamos,
menino!
SAllGENro - Por que ter medo? Olhem bem para mim: a vida de
soldado me fez algum mal? Eu estou nisso há dezessete anos!
MÃE CoRAGEM-Seu Sargento, eu dou parte ao Coronel. Ele bota vocês
dois no xadrez. O tenente é noivo de minha filha.
MÃE CoRAGEM-Ainda está muito longe dos setenta.
SARGENro-Nada de violências, camarada! A Mile Coragem-O que SAllGENTO-Eu chego lá?
Bertok Brecht Mãe Cotagem e seus filhos ' 183
MAl! CoRAGEM-Naturalmente por baixo da tena. .. REcatrrADOR-Não se deixe impressionar, pois ainda não foi fabricada
a bala que há de matar você.
SARGENTO-Quer me agourar, dizendo que eu vou morrer?
SARGENTO com voz rouca-Você quer me embromar!
MAl! CoRAGEM -E se for verdade? Se eu estou vendo no senhor um
homem marcado? Se tem o jeito de um defunto em férias, hein? MAl! CoRAGEM-Foi o senhor que embromou a si mesmo, quando foi
· ser soldado. Mas agora nós vamos andando: não é todo dia que
QuE;pNHo-Ela é vidente: todo mundo diz. Adivinha o futuro. tem guena, e eu tenho de aproveitar.
REcRtrrADOR-Então adivinhe de uma vez o futuro do Sargento, que SARGENTO-Cornos diabos, a mim você não embroma. E esse seu filho
ele vai gostar. bastardo fica conosco: vai ser soldado nosso!
SARGENTO-Não faço fé nessas coisas. EWF-Mãe, eu queria ser. ..
MAl! CoRAGEM-Me empreste o seu capacete! O Sargento dá-lhe o MAl! CoRAGEM-Cale o bico, demônio finlandês!
elmo.
EWF-O Queijinho também queria ser soldado.
SARGENTO-:-Isso, para mim, quer dizer menos do que cocô no capim.
Em todo caso, vamos rir um pouco. .. MAl! CoRAGEM-Isso, para mim, é novidade. Eu vou ter de tirar a sorte
de vocês, detodostrês.Afas~e para trás, parap intarc ruzes
MAECoRAm!Mpegaumafolhadepergamlnhoerasgaa-Eilif,Kattrin,
em pedaços de papeL
Queijinho: isto é o que iria acontecer conosco, se nos metêsse
mos na guena. Ao Sargento-Para o senhor, eu vou abrir uma
REcRtrrADOaaEIIIf-Falam de nós, por aí, que no acampamento sueco
exceção: faço o trabalho de graça. Neste papel eu pinto uma
só tem beato; mas é pura calúnia, para nos prejudicar. Lá só se
cruz preta: preta é a morte.
cantam hinos aos domingos, só uma estrofe e só quem tem boa
voz!
QuE;pNHo-O outro, ela deixa em branco: está vendo?
MAl! CoRAGEM volta com osp apéis dobrados no elmo do Sargento
MA!! CoRAGEM-Agora eu dobro os dois, misturo bem: assim como as
pessoas se âíisturam, desde que saem do ventre da mãe. Querem ir para longe da mamãe, seus diabos, e meter-se na
guena, como cordeiros na bocadolobo. .. Mas eu vou consultar
Depois, é só tirar um dos papéis, para ver o que dá. ..
os papeizinhos, e vocês já vão ver que o mundo não é nenhum
O Sargento hesita.
vale de alegrias, com essa história de "vem, meu filho, que
precisamos de mais capitães". Sargento, o meu maior medo é o
REcRtrrADOR a Elllf-Eu não vou aceitando qualquer um, não: tenho
até certa fama de exigente. Mas você tem um jeito qúe me de que meus filhos não voltem daguena. Eles são assustados de
agrada. nascença, todos três. Estende o elmo aEUif.Vá, tire a sua sorte!
Elllftlra ump apel, desdobra-o; ela arranca-lhe das mllos. Aí
SARGENTO tirando do elmo um dos papéis-Que estupidez! 1i pura está: uma cruz! Oh, mãe desventurada, que pariu com tanta dor:
tapeação! e o filho vai morrer na flor da idade! Está claro que, se ele for
soldado, há de morder o pó. Mas ele é atrevido como o pai: se
QuEipNHo-Tirou o da cruz preta: está perdido! não tiver juízo, há de cumprir o destino da carne - carne de
184 Bertolt Brecht 'Mãe Coragem e seus filhos 185
canhão! É isso o que este papelzinho quer dizer. .. Grita, au REcaurAIX>R ao Sargento-Faça qualquer coisa!
toritária. - Quer ter juízo?
SARGENTo-Não estou me sentindo nada bem.
EwF-E por que não?
RECRUTAIX>R-Vai ver que se resfriou, tirando o elmo neste vento frio.
MAl! CoRAGEM-Ter juízo é ficar com sua mãe; e, quando alguém vier Proponha alguma transação a ela. Alto-Sargento, você pode
rir de você, chamar você de galinha, dar gargalhada na cara darumaolhadanaquelafivela!Égenteboaevivedoquevende,
dele. é ou não é? Ei, vocês: o Sargento quer comprar a fivela!
RECRUTAIX>R-Bem, se você é de cagar nas calças, eu prefiro levar o MAl! CoRAGEM - Custa meio florim, mas vale dois uma fivela destas.
seu irmão. Torna a descer da carroça.
MAl! CoRAGEM-Eu já lhe disse o que tem a fazer: dê uma gargalhada! SARGENTO - Nem é uma fivela nova. .. E aqui está ventando muito,
Vamos: ria! E agora, Queijinho, é a sua vez: com você eu não me preciso examinar com mais vagar. Vai com a fivela para trás
preocupo tanto, vocêtemmaislealdade.Queljtnho tirado elmo da carroça.
um papel dobrado e o desdobra. Ora, por que olha assim tão
espantado para o papel? Em branco, deve estar: não é possível MAl! CoRAGEM-N""ao sinto a menor corrente de ar.
que tenha uma cruz pintada. É claro que eu não vou perder
você. .. ElaapanhaopapeLOutracruz?N""ao!IDetainbém?!Será
SARGENTO-Meio florim, talvez valha: é de prata.
por ele ser assim ingênuo? Queijinho meu, você também está
perdido, se não for sempre bom para sua mãe, como eu lhe
MAl! CoRAGEM Indo ao encontro do Sargento, atrás da carroça -É:
ensino desde pequenino, trazendo sempre o troco direitinho
são seis onças de prata maciça.
quando vai comprar pão. Só assim você pode se salvar. Olhe,
Sargento: não é uma cruz preta?
RECRUTAIX>R aEilif-E nós vamos ali bebemorar, como bons camara
das. O dinheiro do alistamento está comigo. Vamos!
SARGENTO - É uma cruz, sim. Só não entendo é eu ter tirado uma,
Etlifpermanece Indeciso.
também: eu fico sempre na retaguarda. Ao Recrutador-Não
deve ser tapeação nenhuma: o azar cai até para os filhos dela!
MAl! CoRAGEM-Meio florim, então?
Qtn!QINHo-Cai para mim, e assim já fico prevenido.
SARGENTO - Não estou entendendo. Procuro estar sempre na reta
MAl! CoRAGEM a Kattrtn-Agora, com certeza, fica só você: você já é guarda. Não há lugar mais seguro que o de sargento: na
uma cruz, mas tem um bom coração. Estende o elmo para o conquista da glória, a gente manda os soldados na frente ... Isto
alto da carroça, mas ela mesma tira o papelzinho. Mas é um veio estragar o meu almoço, sei que não vou conseguir comer
desespero! Não pode ser verdade! Talvez eu tenha cometido nada.
algum engano, nahorademisturar. Kattrin, de agora em diante,
não seja nunca boazinha demais, nunca mais: há uma cruz no MAl! CoRAGEM-O senhor não deve levar a coisa tão a sério assim, a
seu caminho! E trate de ficar muito quietinha: o que não é ponto de nem poder mais comer. Continue a ficar na retaguar
dificil, para quem nasceu muda. E assim, já ficam todos avisa da. E tome um golinho de pinga, homem! Oferece-lhe bebida.
dos: tomem muito cuidado, porque vão precisar. E nós vamos
pegar nossa carroça e tocar para a frente. Devolve o elmo ao com Ellifbem seguro pelo braço, arrasta-o para longe
RECRUTAIX>R
Sargento e sobe na carroça.
-Com dez florins na mão, um rapaz corajoso como você, que
186 Bertolt Brecht Mãe Coragem e seus filhos 187
luta pelo Rei, as mulheres vão lhe chover em cima. E quanto a CoZINHEIRo-Sessenta H e/ler por uma penosa horrível dessas?
mim, você pode fechar meu bico, se eu tiver dito alguma coisa
errada ... Saem os dois. MAE CoRAGEM-Penosa horrível? Um animal tão gordinho? Como é
A muda Kattrin salta da carroça e solta uns gritinhos roucos. que um General, guloso como é, não pode dar sessenta míseros
Heller por ele? E ai de você, se não tiver nada para servir no
MAE CoRAGEM-Já vou, Kattrin, já vou. O senhor Sargento está agora almoço!
me pagando. Morde a moeda de meiof lorim. Eu não confio em
moeda nenhuma: sou uma gata escaldada, Sargento. Mas esta CoZINHEIRo - Iguais a esse eu arranjo uma dúzia por dez Heller, na
peça é das boas. .. E agora vamos embora: onde está Eilif? primeira esquina!
QUEUINHo-Foi com o Recrutador. MAE CoRAGEM-O quê? Um pato como este, você arranja na primeira
esquina? Com a cidade sitiada, e uma fome de rachar? Uma
MAE CoRAGEM fica um momento parada-Ah, que menino ingênuo! ratazana, pode ser que você arranje; e digo "pode ser•, porque
A Kattrin - Sei que a culpa não é sua: você não pode falar. já foram todas devoradas. Vi cinco homenzarrões correndo
uma tarde inteira atrás de uma ratazana esfomeada. Cinqüenta
SARGENTo - Agora, Mãe Coragem, você também pode tomar um
Heller por um pato deste tamanho, em estado de sítio, não é
golezinho. Assim é a vida. E ser soldado ainda não é o pior. Você
nada demais. ..
queria viver às custas da guerra, sem se meter nela, nem você
nem os seus: mas de que jeito?
CoZINHEIRo-Não somos nós que estamos sitiados: os outros é que
estão. Veja se mete na sua cabeça que, aqui, os sitiantes somos
MAE CoRAGEM-Kattrin, você agora tem de puxar a carroça com seu
nós!
irmão.
Ambos, Queijinho e Kattrin, atrelam-se ao varal da carroça e
MAE CoRAGEM-Mas nós também não temos nada que comer, e ainda
puxam-na. Mãe Coragem caminha ao lado. A carroça afasta-se.
menosqueládentroda cidade: os que estão lá levaram tudo que
SARGENTo seguindo-os com o olhar podiam. Ouvi dizer que estão na boa vida. E nós? Andei falando
com os camponeses: eles estão a zero!
Quem da guerra se quer aproveitar,
Alguma coisa em troca tem que dare
CoZINHEIRo-Eles estão escondendo o que têm.
MAE CoRAGEM triunfante - Não têm coisa nenhuma. Estão arruina
2
dos, isso sim! Andam morrendo à míngua. Eu vi alguns desen
NOS ANOS DE 1625 E 1626, MÃE CORAGEM, ACOMPA terrando raízes, de tanta fome; e lambiam os dedos por uma tira
NHANDO O EXÉRCITO SUECO, ATRAVESSA A POLÔNIA. EM de couro cozido. f! o que se vê. E eu, que tenho um bom pato,
FRENI'EÀFORTALEZADEWA llHOF, TORNA A ENCONTRAR hei de vendê-lo por quarentaHeller?
O FllliO EILIF. VENDA OPORTIJNA DE UM PATO E DIAS DE
GLÓRIA DO FllliO CORAJOSO Comrnmto-PorquarentaHeller, não: portrintaHeller. Eu disse trinta!
Na tenda do general MAE CoRAGEM-Masestenãoéum pato qualquer, não. f! tão prendado:
ouvidizerquesócomiaquandotocavammúsica, e tinha até um
A um lado, a cozinha. Troardecanhões. O Cozinheiro discute com dobrado predileto. Sabeatéfazercontas, de tão inteligente que
Mãe Coragem, que tenta vender-lhe um pato.
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