Table Of Contenta
ó r i
t
H i s
Vo l u m e 3
Dados Internacionais para Catalogação na Publicação (CIP)
(Maria Teresa A. Gonzati / CRB 9-1584 / Curitiba, PR, Brasil)
C794 Cordeiro, Lysvania Villela.
História : ensino médio / Lysvania Villela Cordeiro, reformulação dos originais de: Norton
Frehse Nicolazzi Junior ; ilustrações André Müller. – Curitiba : Positivo, 2015.
v. 3 : il.
Sistema Positivo de Ensino
ISBN 978-85-385-9968-5 (Livro do aluno)
ISBN 978-85-385-9969-2 (Livro do professor)
1. História. 2. Ensino médio – Currículos. I. Nicolazzi Junior, Norton Frehse. II. Müller, André.
III. Título.
CDD 373.3
©Editora Positivo Ltda., 2015
Presidente: Ruben Formighieri
Diretor-Geral: Emerson Walter dos Santos
Diretor Editorial: Joseph Razouk Junior
Gerente Editorial: Júlio Röcker Neto
Gerente de Arte e Iconografia: Cláudio Espósito Godoy
Autoria: Lysvania Villela Cordeiro; reformulação de originais de Norton Frehse Nicolazzi Junior
Supervisão Editorial: Jeferson Freitas
Edição de Conteúdo: Lysvania Villela Cordeiro
Edição de Texto: Shirlei França dos Santos
Revisão: Sandra Regina de Souza (Coord.) e Alessandra Cavalli Esteche
Supervisão de Arte: Elvira Fogaça Cilka
Edição de Arte: Tatiane Esmanhotto Kaminski
Projeto Gráfico: YAN Comunicação
Ícones: ©Shutterstock/Goritza, ©Shutterstock/Kamira, ©Shutterstock/ericlefrancais, ©Shutterstock/Chalermpol,
©Shutterstock/Maxx-Studio, ©Shutterstock/Leremy, ©Shutterstock/David Arts e ©Shutterstock/Lightspring
Imagens de abertura: Acervo pessoal de Lysvania Villela Cordeiro (Santa Bárbara. [ entre 1515 e 1520]. 1 escultura em madeira
policromada com douramento. Maline. Museu de Cluny, Paris.) e ©Shutterstock/Be Good
Editoração: Rosana da Silva Cunha
Ilustração: André Müller
Pesquisa Iconográfica: Janine Perucci (Supervisão) e Vítor Yago Argus
Cartografia: Julio Manoel França da Silva e Marilu de Souza
Engenharia de Produto: Solange Szabelski Druszcz
Produção
Editora Positivo Ltda.
Rua Major Heitor Guimarães, 174 – Seminário
80440-120 – Curitiba – PR
Tel.: (0xx41) 3312-3500
Site: www.editorapositivo.com.br
Impressão e acabamento
Gráfica e Editora Posigraf Ltda.
Rua Senador Accioly Filho, 431/500 – CIC
81310-000 – Curitiba – PR
Tel.: (0xx41) 3212-5451
E-mail: [email protected]
2018
Contato
[email protected]
Todos os direitos reservados à Editora Positivo Ltda.
m á r i o
S u
Acesse o livro digital e
conheça os objetos digitais
e slides deste volume.
11
Transição da Antiguidade para a Idade Média
na Europa ............................................. 4
Conceito histórico .....................................................................................6
Feudalismo ...............................................................................................7
Política, economia e religião ...................................................................10
Outro feudalismo: o caso do Japão .........................................................13
12
Império Bizantino ................................. 17
Outra Idade Média .................................................................................19
Império do Oriente ................................................................................21
Política, economia e religião ..................................................................23
Cultura e influências bizantinas .............................................................27
13
Árabes .................................................. 31
Outra Idade Média .................................................................................33
Árabes ....................................................................................................33
Política e economia ................................................................................36
Religião: o surgimento do Islam ............................................................36
Cultura e influências árabe-islâmicas ....................................................41
14
Transição da Idade Média para a Idade
Moderna ..............................................45
Cruzadas ................................................................................................46
Renascimento Comercial e Urbano ........................................................54
Formação da burguesia .........................................................................57
Crise do século XIV .................................................................................58
Transição do feudalismo para o capitalismo ...........................................61
11
Tran s i ç ã o d a An t i g u i d ad e
para a I d ad e M é d i a n a
Eu ro pa
Museu Nacional Romano
LEUTEMANN, Heinrich. O saque de Roma pelos vândalos em 455. [ca.
SOLDADOS romanos do século III lutando contra tropas godas. [ca. 250]. 1 sarcófago em mármore. Museu Nacional Romano, Roma.
1860-1880]. 1 gravura colorida em metal.
Cena de batalha entre soldados romanos e germânicos. O principal personagem é, provavelmente, Ostiliano, filho do
imperador Décio. Sarcófago conhecido como Grande Ludovisi.
Ponto de partida
O Império Romano, como estudado em volume anterior, ampliou grandemente seu território anexando novas
terras e populações. Inicialmente, esse processo garantiu poder e glória aos líderes romanos. Entretanto, por fim,
a ampliação das fronteiras acabou gerando o enfraquecimento e a crise econômica que ocasionaram uma onda
sucessiva de invasões ao Império Romano do Ocidente e seu desaparecimento em 476.
Para iniciarmos nossos estudos, relembre o conceito de bárbaro e destaque os povos que o empregaram
na Antiguidade.
4
Objetivos da unidade:
(cid:131) resgatar as principais características da cciivviilliizzaaççããoo rroommaannaa;;
(cid:131) compreender os fatores que levaram o Império Romano à divisão territorial em Oriente e
Ocidente, destacando as invasões que fragmentaram o poder político do Império Romano do
Ocidente;
(cid:131) localizar temporalmente o período da Idade Média na divisão tradicional da história;
(cid:131) compreender o conceito de feudalismo;
(cid:131) conhecer as principais características do feudalismo, destacando as organizações políticas,
econômicas e sociais;
(cid:131) analisar a sociedade medieval, destacando as relações entre os estamentos e o poder da
Igreja Católica;
(cid:131) compreender o feudalismo japonês.
Nesta unidade, você vai estudar o processo de transição da Antiguidade para a Idade Média na Europa.
Oficialmente, o fim do Império Romano do Ocidente ocorreu com as invasões dos povos “bárbaros”. Em 476, as
invasões anunciaram o fim de um período de grandes realizações e, consequentemente, o início de um período de
“trevas”.
Entretanto, não se pode aceitar a ideia de que o Império Romano deixou de existir simplesmente em decorrência
das invasões “bárbaras”. Tampouco se deve considerar que o fim do Império Romano significou, de maneira precisa,
o fim de um modelo de organização da sociedade e o surgimento de outro completamente diferente.
a IdDade ea cMoérddoia céo fmru too hdiest ourmia dporor cmesesdoie dvea liasctau ltJuacraqçuãeos nLoe qGuoaffl,, Chantilly
pouco a pouco, misturaram-se os costumes dos romanos e dos Condé,
“bárbaros”. Museu
LIMBOURG, Herman; LIMBOURG, Paul;
LIMBOURG, Johan. Tosquia das ovelhas
[iluminura do mês de julho]. In: As ricas
horas do duque de Berry. [entre 1410 e
1416]. Museu Condé, Chantilly. Detalhe.
Desde a fundação de Roma, em 753 a.C., seus
habitantes cultivaram grãos e mantiveram
criações de animais, como carneiros e
ovelhas. Os “bárbaros”, nas terras ao norte
das fronteiras romanas, praticavam a caça
como meio de subsistência. Os costumes
desses povos, ao serem continuamente
misturados e adaptados, deram origem à
sociedade feudal.
Chantilly
Condé,
Museu
LIMBOURG, Herman; LIMBOURG, Paul; LIMBOURG, Johan. A caçada do javali [iluminura
do mês de dezembro]. In: As ricas horas do duque de Berry. [entre 1410 e 1416]. Museu Condé,
Chantilly. Detalhe.
5
Conceito histórico
Tradicionalmente, o início da Idade Média está situa- diário). É perceptível que tal denominação assumiu um ca-
do no século V da Era Cristã. Contudo, o processo que ráter altamente pejorativo: a palavra meio deriva do latim
provocou as modificações que transformaram a fisiono- medius, mesma raiz latina da palavra médio, que é si-
mia da Europa Ocidental se iniciou muito antes daquele nônimo de mediano, de medíocre. De acordo com o
século, bem como se prolongou depois dele. O mesmo Dicionário Aurélio, medíocre é um adjetivo que indica a
ocorre quando as “invasões bárbaras” são identificadas qualidade daquilo que não tem importância, que é ordi-
como a causa que determinou o fim do Império Romano nário e vulgar.
do Ocidente, anunciando o começo do Período Medieval.
Logo, para os humanistas, a Idade Média foi um pe-
A ideia de “invasões” é rejeitada por vários historiado- ríodo sem importância, um período medíocre. O caráter
res. Eles defendem que, na realidade, ocorreram desloca- pejorativo em relação ao medievo europeu data do sécu-
mentos de povos em busca de melhores condições de lo XIV, mas somente no século XIX foram estabelecidas as
vida dentro das fronteiras do Império Romano. A acultu- balizas cronológicas que determinaram o seu fim.
ração foi recíproca: romanos e “bárbaros” trocavam tanto
Para esses historiadores, o Renascimento representou
produtos quanto costumes. É importante destacar que
uma ruptura com a Idade Média, bastando, então, escolher
tais deslocamentos e trocas foram, ao mesmo tempo, pa-
uma baliza cronológica precisa para marcar o fim da “Idade
cíficos e violentos.
das Trevas”. Decidiu-se que o ano de 1453 marcaria o fim
Geralmente, fala-se em Alta Idade Média e Baixa Ida-
da Idade Média, exatamente a data em que a cidade de
de Média, o que não deixa de ser um reflexo da própria
Constantinopla foi tomada pelos turco-otomanos. Fato que
mentalidade medieval: alto como símbolo daquilo que
representou o fim do Império Romano do Oriente, ou Im-
é antigo, um passado venerável, e baixo simbolizando o
pério Bizantino. Portanto, tradicionalmente, a Idade Média é
que é recente, porém decadente e imperfeito.
concebida como o período de tempo entre o fim do Império
Os humanistas denominaram aquele período de Romano do Ocidente (476) e o fim do Império Romano do
medium tempus, o tempo do meio (período interme- Oriente (1453), ou Império Bizantino.
Outras versões
Foi salientado que a fixação de datas precisas para definir o início e o fim da Idade Média acaba, invariavelmente,
sendo uma tarefa falsa, incompleta e arbitrária. Para o historiador medievalista José Luis Romero (2009), o processo de
mudanças que culmina na Idade Média começa antes de 476 e continua depois dessa data.
O historiador medievalista Jacques Le Goff defende a ideia de “uma longa Idade Média”, que se estende muito além
de 1453. A esse respeito, veja o que disse Le Goff em entrevista à revista francesa L’Histoire, publicada em outubro de
1999.
[...] Penso que o que devemos compreender como a verdadeira Idade Média é, simultaneamente, uma
idade de trevas e uma idade de ouro. Acrescentemos – para estender isso até o século XIX! – que o que
herdamos desse período, no que concerne ao ensino e à pesquisa, delimita a Idade Média, a qual iria da
decomposição do Império Romano e do mundo antigo, no século V, até o triunfo do humanismo, no fim
do século XV, um monstro cronológico!
[...] O Renascimento não é a ruptura absoluta, decisiva, que pretendeu ser: há uma longa Idade Média
que iria até o fim do século XVIII. Pode-se dizer que a Idade Média só teve fim com a Revolução Francesa
e a Revolução Industrial!
LE GOFF, Jacques. Uma longa idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. p. 29.
6 Volume 3
De acordo com o texto, responda às questões a seguir.
1. Para o historiador Jacques Le Goff, a Idade Média foi apenas um período de “trevas”? Justifique a resposta.
2. Tradicionalmente, a cronologia estabelece como início e fim da Idade Média os anos de 476 e 1453, respectivamente.
O historiador Jacques Le Goff concorda com essa periodização? Justifique a resposta.
Feudalismo
A desintegração do Império Romano do Ocidente não ocorreu exatamente no ano de 476. Os dois séculos anteriores
já indicavam que uma crise social, econômica e política abatia os territórios romanos. Desse modo, parte-se do princípio
que, desde o século III, uma transição foi, gradualmente, substituindo o modelo de organização do Império Romano por
outro modelo, resultado de um processo de aculturação entre os costumes romanos e os costumes dos povos “bárbaros”.
É importante lembrar que, com as conquistas territoriais romanas, os
latifúndios agrários predominaram e que, para essas grandes proprieda-
des rurais serem mantidas, era usada a mão de obra escrava obtida, prin- Servidão é a condição de quem é servo,
cipalmente, entre os povos conquistados. que se prende à obrigação de prestar ser-
Contudo, a partir do século III, a expansão territorial e as conquistas viços e/ou tributos. Servo, do latim servus,
deixaram de ocorrer, gerando a falta de trabalhadores para abastecer os significa “escravo”. Na prática, apesar de
latifúndios. Essa diminuição da oferta de mão de obra foi solucionada pela consideradas pessoas livres, os servos não
eram verdadeiramente livres, pois depen-
progressiva libertação dos escravizados e sua substituição por uma nova
diam de seus senhores.
relação de servidão. Esta se baseava na distribuição de lotes de terras aos
escravizados “libertados”, denominados de servos.
m O novo modelo de organização que passou a vigorar no
Museu de Israel, Jerusalé dlçaaoget ircmidacedu c eltotneolortrreena sa I,m ptsueepslm.aé N r qiseoeus rasReelom dmm eeaovsnedcorreia alovf oi,pz iu aadmdgeoa nrrse o, unemmdsitenaai avrrodae monre d dcpaeee b prcpieaoer liutoóumndaaim ctpoaee,. dndOtaoes-
ligados à terra, bem como seus descendentes (a regra romana
do partus sequitur ventrem, que os filhos seguiam a condição
da mãe pelo nascimento, permaneceu durante a Idade Média).
Naquele período, o sistema do colonato romano mesclou-
-se com os costumes “bárbaros”, originando outro modelo de
organização econômica, política e sociocultural que, posterior-
mente, foi denominado feudalismo. De maneira geral, consi-
dera-se que o feudalismo consolidou-se a partir do século XI,
vigorando até o século XIII e, a partir daí, entrou em decadência.
ILUMINURA do século XV representando uma cena rural. Pintura a bico
de pena, folha de ouro sobre papel vegetal, 21 cm × 15 cm. Museu de
Israel, Jerusalém. Coleção Rothschild.
A aldeia feudal e as terras ao seu redor consistiam no núcleo da
sociedade medieval.
7
História
Como o feudalismo foi um modelo com diversas particularidades, deve ser considerado como “um conceito histó-
rico construído com o intuito de servir de ferramenta teórica para o estudo de determinado período na formação do
Ocidente” (SILVA, 2008, p. 150). Sendo assim, neste material, são apresentadas algumas características gerais do feuda-
lismo, lembrando que, de acordo com a época e com a região em que existiu, pode haver diferenças.
Partindo do princípio de que o feudalismo é fruto da fusão de costumes romanos com costumes “bárbaros”, é fun-
damental lembrar que nenhuma das duas sociedades era socialmente igualitária. Logo, a sociedade feudal não estava
livre de desigualdades. Aliás, a existência do sistema feudal fundou-se exatamente nas desigualdades.
Nesse sentido, a propriedade de terras, da qual dependia a sobrevivência da sociedade feudal, é uma das principais
características das desigualdades do feudalismo. As relações de propriedade de terra definiam a própria organização
social, a qual era dividida, de acordo com cada função, em ordens ou estamentos.
As três ordens que formavam a sociedade feudal eram: oratores, bellatores e laboratores ou aratores. Entre as três
ordens, imperava a dependência de homem para homem, o que definiu, de fato, a hierarquia da sociedade feudal.
Biblioteca Britânica, Londres
LAVOURA com bois. Iluminura integrante da obra Luttrell Psalter. [ca. 1325-1335]. Biblioteca Britânica, Londres.
Os pastores e agricultores ou, simplesmente, os servos, compunham o grupo dos laboratores, ou aratores, aqueles que eram ligados ao
trabalho braçal.
MESTRE Cardeal de Bourbon.
Vida e milagres do Monsenhor
São Luis. [ca. 1482].
Iluminura sobre pergaminho,
37 cm × 21,5 cm. Biblioteca
Nacional da França, Paris.
Detalhe.
Na esfera da Igreja,
estavam os religiosos,
aqueles que oravam e
formavam o grupo dos
oratores.
Nacional da França, Paris Biblioteca Britânica, LondresILUMINURA do século XV. In: FROISSART, Jean. Crônicas de Froissart (v. IV,
Biblioteca pa Vrtien 1cu).l a[ednotsre a 1o4 c7a0m ep 1o4 m75il]i.t aBri,b aliqouteeclae sB qriutâen liucat,a Lvaomnd ere ps.articipavam
de duelos e torneios, os cavaleiros e senhores, eram chamados de
8 Volume 3 bellatores.
De acordo com o historiador Guy Fourquin (1987), a dependência que gera hierarquia entre indivíduos é a base do
feudalismo. Para Fourquin, “um homem, o vassalo, confia-se a outro homem, que escolhe para seu amo, e que aceita
esta entrega voluntária. O vassalo deve ao amo fidelidade, conselho e ajuda militar e material. O amo, o senhor, deve a
seu vassalo fidelidade, proteção, sustento”. Mas, que motivo leva alguém a ser vassalo de um senhor?
A historiadora Flávia Lages de Castro (2007) afirma que o motivo de alguém estar sob o senhorio de outra pessoa
é a necessidade de sobrevivência, a qual se baseava na fidelidade, na hierarquia e na honra, valores característicos da
Idade Média. Esses valores são observados nas relações de dependência entre indivíduos: a vassalagem e a servidão.
A vassalagem consistia-se em uma relação de dependência política, ligava um nobre ao seu senhor por meio de
uma cerimônia denominada homenagem. A homenagem era um ato que simbolizava a autoentrega, pela qual o no-
bre se comprometia com fidelidade ao seu senhor, obrigando-se a combater ao lado dele e prestar todo tipo de ajuda.
A servidão, que podia assumir duas formas de sujeição, a do indivíduo e a da terra, estabelecia a relação entre o
servo e o senhor. Ao receber um pedaço de terra em servidão, o servo passava a dispor do usufruto da propriedade,
mas devia reconhecer que tal terra era domínio de seu senhor. A investidura era o ritual em que o senhor entregava
simbolicamente a terra ao vassalo.
ILUMINURA do século XV. In: D’ANJOU, René. Tratado da forma e
especificações sobre os torneios. Biblioteca Nacional, Paris.
No ritual da homenagem, o vassalo, de joelhos, estendia suas
mãos para que o suserano as beijasse ou as fechasse entre as
próprias mãos. No ritual da investidura, ao vassalo era entregue
um saquinho contendo terra ou um graveto de árvore que
representavam o feudo outorgado.
ARS
O
mages/VISI
Akg-I
LatinStock/
A dependência manifestada por rituais como a investidura e a homenagem era indispensável em uma sociedade
cujos sistemas jurídicos eram consuetudinários, isto é, baseavam-se nos costumes. Os rituais, portanto, eram cerimô-
nias públicas que oficializavam os contratos entre vassalos e suseranos.
Tanto a homenagem quanto a investidura exigiam juramentos de lealdade. Esse juramento assumia um caráter
sagrado, de pacto perpétuo, como nos casamentos. E, a exemplo dos casamentos daquela época, esses contratos não
deveriam ser rompidos, pois se acreditava que eram eternos.
Na prática, porém, havia algumas possibilidades de se romper um contrato, como no caso de um vassalo devolver
o feudo recebido (que deveria ser feito com a devolução do objeto que simbolizou o recebimento da terra) ou quando
uma das partes era excomungada pela Igreja (pois nenhum cristão podia se relacionar com um excomungado).
Assim, pode-se concluir que o feudalismo foi um sistema de organização política, econômica e social que, a des-
peito das diversidades existentes, baseou-se na propriedade da terra e na dependência entre indivíduos. Ou seja, a
sociedade feudal estava fundamentada na desigualdade.
9
História
Política, economia e religião
Considerando a Idade Média como fruto de um processo de aculturação em que, pouco a pouco, misturaram-se
os costumes romanos e os “bárbaros”, deve-se salientar que a organização político-econômica do período começou a
se desenvolver a partir dos séculos IV e V, consolidando-se entre os séculos XI e XIII, para então se desfazer no decorrer
dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. Note que o intervalo histórico privilegiado é muito mais amplo do que a tradicional
periodização empregada para a Idade Média, que vai do século V (476) ao século XV (1453).
Do ponto de vista religioso, também ocorreram mudanças, como a expansão cristã na Europa (séculos IV a X), o sur-
gimento e a expansão do islamismo (a partir do século VII), a sistemática perseguição aos “infiéis” e hereges (séculos VIII
a XVIII), a divisão da Igreja Cristã (século XI) e a negação do predomínio intelectual da Igreja Católica (séculos XV a XVIII).
O processo histórico de mudanças ocorridas na Europa Ocidental entre os séculos IV e XI, período ao qual se atribui
o desaparecimento das cidades e o fim das atividades comerciais, é repleto de importantes detalhes. Para compreen-
der as transformações que propiciaram a consolidação do sistema feudal, devem-se levar em conta esses detalhes
muito esclarecedores.
O desaparecimento das cidades, por exemplo, pode revelar muitas características do feudalismo. É importante
lembrar que, no Império Romano, as cidades eram a base do próprio Estado, estando o campo diretamente vinculado
aos centros municipais. O historiador Henri Pirenne (2003) chegou a afirmar que “o campo não era outra coisa que um
território da cidade; que não existia sem ela, que só produzia para ela e por ela estava governado”.
Biblioteca Britânica, Londres
CRESCENZI, Piero de. [Iluminura]. [14--]. Bolonha.
Imagem original no Livro das profissões rurais. Biblioteca
Britânica, Londres.
A autossuficiência dos feudos implicou o fim do
comércio, isto é, com cidades menos populosas e menos
importantes, os produtos rurais e artesanais vendidos
nos mercados urbanos perderam seus consumidores.
Os camponeses, sem mercado, produziam o mínimo
necessário para a sobrevivência.
Uma confluência de fatores (aproximação dos povos “bárbaros”, fragmentação do poder político em reinos feudais
efêmeros, abandono dos centros urbanos, etc.) levou as cidades antigas à decadência. Entretanto, há de se destacar
que, por mais arruinadas e despovoadas que se encontrassem, as cidades não perderam toda a sua importância.
Os templos greco-romanos incorporaram novas funções: foram reutilizados como igrejas, ou as próprias igrejas foram
construídas sobre eles. Os anfiteatros foram abandonados, pois o cristianismo proibiu o circo. Na cidade de Nimes, sul da
França, os muros do anfiteatro serviram como defesa para a aldeia que passou a existir entre seus escombros.
Assim, ainda havia moradores nas cidades convertidas, basicamente, em centros religiosos. Esses poucos morado-
res encarregavam-se de prover a subsistência do clero. As mudanças e adaptações ocorridas nas cidades se refletiram
diretamente nas atividades econômicas, e o comércio, propriamente dito, deixou de existir.
10 Volume 3