Table Of ContentDIÁRIOS ÍNTIMOS: ANÁLISE DE ESCRITOS EM BANHEIROS
PÚBLICOS FEMININOS DE FLORIANÓPOLIS
Cristiane de C. Ramos Abud1; Maristela da Rosa2
Resumo: Este texto apresenta a análise de escritos nas portas de banheiros públicos
femininos da cidade de Florianópolis, enquanto aparatos discursivos portadores de
significados, representações estéticas, artísticas, culturais e de gênero, evidenciando o
imaginário dos sujeitos que transitam por estes espaços na cidade. Por meio desta
pesquisa e com o auxílio dos estudos da História Cultural, pôde-se compreender o
banheiro enquanto espaço público da cidade, de livre acesso, mas que ao mesmo tempo
torna-se um espaço anônimo de relatos pessoais, território da liberdade de expressão,
onde sentimentos e memórias, confidências, expõem as subjetividades de seus
freqüentadores e que evidenciam as marcas culturais internalizadas pelos sujeitos e que
encontra, no banheiro, um território livre para expressar suas intimidades.
Palavras-chave: Grafitos; Sentimentos; Memórias; Banheiros.
Da privada eu vou dar com a minha
De panaca pintada no espelho
E me lembrar, sorrindo que o banheiro
É a igreja de todos os bêbados
(Down em Mim- Cazuza)
1. Primeiros escritos
As portas dos banheiros públicos celebram o acontecimento, evidenciam os
rastros, as marcas, como uma tela a espera de uma linha, um registro. Objeto artístico e
estético do encontro de emoções, sentimentos, subjetividades do espaço púbico das
cidades. Traços íntimos, transgressores, reveladores de desejos, sonhos, amores e
desamores; muitas vezes despercebidos pelo movimento de seus transeuntes, mas que
para alguns torna-se o palco, a parada para a experimentação e a criação. Um espaço
para demarcar sua identidade, onde sua palavra, seu discurso, seus desenhos ficam à
1 Programa de Pós-Graduação em Educação-Udesc-Florrianópolis/SC. Doutoranda em Educação. Email:
[email protected].
2 Programa de Pós-Graduação em Educação- Udesc-Florrianópolis/SC. Doutoranda em Educação. Email:
[email protected].
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espreita de um olhar, de um leitor atento aos seus rastros “que documentam as piores
taras e os piores ressentimentos e, portanto, o melhor humor da humanidade”
(VERÍSSIMO, 1999, p.76).
É por meio do uso da caneta, de um hidrocor, giz, corretivo líquido ou batom,
que se materializam palavras, escritos que expressam além de sentimentos, histórias de
vida; lamentos, de uma cultura, de uma época, de uma sociedade, permeadas por
relações de gênero, desigualdades sociais, sexualidades, lutas políticas, que vão além
das quatro paredes de um banheiro.
Os escritos em banheiros são também chamados de grafitos, pois contém em si
um enredo elaborado, simbologias, fontes de investigação que possibilitam análises
sociais (NWOYE, 1993). Também denominados escritas latrinárias, englobam palavras,
frases ou desenhos feitos no interior de banheiros públicos. O ato de escrever em
paredes de banheiros é bastante antigo, há registros que em Pompéia os romanos
costumavam produzir inscrições em grego nas paredes dos banheiros em suas casas
(NETO, 1992).
No Brasil ainda há poucas pesquisas acerca desse tema, as quais deveriam ser
divulgadas pela riqueza de possibilidades de análises a partir de diferentes olhares sobre
os escritos. Além disso, pelo fato de o banheiro ser considerado um local seguro, há
uma maior abertura por parte das pessoas, sobre curiosos aspectos de seu
comportamento e principalmente de sua sexualidade. De acordo com Teixeira e Otta
(1998, p.232) “na esfera reservada de um banheiro, onde o anonimato é assegurado,
idéias podem surgir sem censura externa. Assim, os grafitos podem servir como um
canal seguro para a expressão de seus impulsos sexuais”.
Na década de 1950 ocorreu uma das primeiras pesquisas registradas acerca dos
grafitos, utilizando-os para o entendimento de características sexuais de homens e
mulheres. Posteriormente, no final dos anos 1960 e início dos de 1970, a sociedade e a
cultura, de uma maneira geral, sofreram transformações que refletiram em mudanças
nos papéis sexuais de ambos os gêneros, havendo na mulher, principalmente um
tratamento mais direto sobre sua sexualidade (TEIXEIRA; OTTA, 1998). Em estudos
anteriores (ARLUKE; KUTAKOFF e LEVIN apud DAMIÃO e TEIXEIRA) foram
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feitas comparações entre escritos encontrados em banheiros femininos e masculinos
localizados em universidades da região de Boston-Cambridge.
Nesses trabalhos chegou-se à conclusão de que as mulheres produziam um
menor número de grafitos relacionados a sexo. Nos anos de 1970, por exemplo, essa
proporção era de 25% de grafitos com conteúdo sexual para as mulheres e 35% para
homens. Já na década seguinte, a porcentagem dos escritos masculinos aumentou para
46% e a das mulheres ficou em apenas 26%.
Em outro estudo realizado por Damião e Teixeira (2009), no entanto, percebeu-
se que quantidade de grafitos com conteúdo sexual obtiveram praticamente a mesma
porcentagem tanto nos banheiros masculinos quanto nos femininos (37,4% e 33,2%
respectivamente). As categorias que obtiveram no banheiro masculino uma maior
presença foram as relacionadas a esportes, insulto e humor, enquanto nos banheiros
femininos predominavam os grafitos que tratavam de religião, filosofia e romantismo.
Já o pesquisador Gustavo Barbosa (1894), associa o conteúdo dos grafitos ao universo
da pornografia e ao proibido com relação ao corpo e seus prazeres.
A obra referencial sobre grafitos de banheiro na Europa foi escrita pelo austríaco
Sigl (1993). Ele é o fundador do Wiener Grafitti Archiv, que apresenta uma coleção
bastante extensa de grafitos de muitas cidades em vários países da Europa organizados
em várias temáticas, entre elas, sexualidade e relações de gênero. O livro
“Kommunikation am Klo. Graffiti von Frauen und Männern” é resultado da sua
dissertação de mestrado, um estudo quantitativo, na área da psicologia. Ele explora
várias temáticas e procura em cada uma delas a existência de diferenças entre banheiros
masculinos e femininos. O autor constata que nos banheiros masculinos se encontram
muito mais escritas e desenhos que nos banheiros femininos.
A obra acadêmica mais recente que utiliza o trabalho de Sigl (1993) como base é
o estudo de Katrin Fischer (2009), que analisa as escritas nos banheiros universitários
de Bonn/Alemanha sob uma perspectiva linguística. A autora não se interessa
exatamente pela temática dos grafitos, mas espera examinar como os grafitos de
banheiro são influenciados pelo espaço medial da cabine do banheiro. Fischer (2009)
mostra que o banheiro como espaço físico sempre influencia a linguagem dos grafitos
de banheiro. Grafitos de banheiro são, para Fischer (2009), um encontro social
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temporário, que se constitui em uma pessoa presente e na ausência de muitos parceiros
de interação.
Na pesquisa aqui em questão, para análise das representações dos discursos das
imagens presentes nas portas de banheiros públicos femininos de Florianópolis, foi
utilizado o referencial teórico de Foucault e dos estudos da História Cultural. Os
discursos são compreendidos aqui, além de um conjunto de signos e significados que se
referem a determinadas representações, mas também, as práticas que produzem os
objetos que enunciam.
Os significados que compõem os discursos só existem a partir do momento em
que são enunciados, ou seja, o significado não existe antes de ser citado. Os discursos,
por sua vez, além de descrevem as coisas do mundo, fazem-nas existir. Eles criam e dão
sentido para a realidade em que nos encontramos, é através dos discursos que são
materializados os conceitos da nossa cultura. O discurso dá vida, dá movimento,
sentimento ao corpo social e também ao corpo físico, seja através de instituições ou
imagens produzidas por nossa cultura ao longo do tempo. Apesar de os autores dos
escritos manterem-se em sua maioria, no anonimato, o discurso proferido permanece,
deixa marcas (FOUCAULT, 1987).
2. Escritos em evidência
Durante o mês de outubro de 2014 foram tiradas um total de 32 fotografias de
imagens localizadas nas portas internas de banheiros públicos localizados em locais de
grande circulação no centro da cidade de Florianópolis, tais como: terminais de ônibus,
universidade e escolas municipais. Para os escritos, verificou-se que foram utilizadas
canetas nas cores: preta, rosa, azul e corretivo líquido. Pode-se verificar o predomínio
de algumas categorias nas imagens dos escritos, como representações relacionadas à
sexualidade de cunho sexual, homossexual, de repressão, desejo pornográfico,
confidências; à política como movimentos de liberdade, de denúncia, luta por direitos;
artístico, por meio de desenhos livres.
Das 32 imagens analisadas, 3 eram de desenhos livres como animais (cavalo,
coelho) e de objetos (coroa, estrela) sem inscrições ou legendas, mas que evidenciam
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que o autor demorou um certo tempo para produzi-los, com um traçado bem feito e
ocupando um grande espaço da porta interna do banheiro.
Figura 1.
Denotando cunho amoroso encontramos 8, sendo 7 com caráter homossexual
feminino e 1 de relação heterossexual. Palavras carinhosas, de elogios todas seguidas
por desenhos de corações representando uma relação desejada ou realizada. A
homossexualidade feminina aqui é representada como algo prazeroso e positivo, fala de
desejos e prazeres (SIGL, 1993).
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Figura 2.
Encontramos 14 escritos relacionados à luta pelos direitos das mulheres,
legalização do aborto, opiniões de cunho político, contra o abuso sexual das mulheres,
contra a homofobia. Esses escritos têm relação com o local onde se encontram e com os
sujeitos que o freqüentam, pois foi nos banheiros da universidade e de escolas onde
foram encontradas palavras de incentivo à luta pelos direitos femininos e a favor da
legalização do aborto.
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Figura 3.
Com xingamentos e palavrões às próprias mulheres, encontramos 5 escritos
apenas. A palavra “puta” ou “vadia” é a que ganha destaque e a mais utilizada, de cunho
pejorativo e ofensivo carregada de atribuições culturais e historicamente
discriminatórias na sociedade. Desta forma, estes escritos evidenciam que ainda se tenta
atribuir distinções entre as mulheres com padrões comportamentais aceitos ou
considerados corretos pela sociedade.
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Figura 4.
Dois escritos relatavam confissões: uma de uma moça de 19 anos que acha estar
grávida pelas dores que tem sentido, esperando talvez uma opinião em outro escrito que
a auxiliasse ou apenas como um desabafo em um local em que se sentia segura para
isso, atrás das paredes fechadas de um banheiro. A mesma moça relata uma vontade de
realizar um aborto, mesmo sabendo de sua proibição e dos riscos que corre.
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Figura 5.
Nesta mesma linha de questões tidas como “proibidas”, uma outra moça relata
estar no terminal de ônibus aguardando um rapaz que conheceu pela internet. O que a
preocupa é a palavra que ela grifa na escrita destacando que está “matando aula” para
este encontro.
As autoras de ambos os escritos evidenciam o fato do banheiro ser utilizado,
através de grafitos, para expressar seus problemas ou dificuldades (AHMED, 1981).
Historicamente o banheiro sempre foi o local excluído da casa, antes até mesmo fora
delas; do espaço do lar considerado limpo e puro, um local silencioso onde os
pensamentos impuros e proibidos ganham evasão.
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3. Tecendo escritos
Percebemos que o banheiro ainda é um local público, mas ao mesmo tempo
individual, ou seja, cada sujeito expressa da sua maneira sua identidade, desejos, medos,
sonhos, e acaba compartilhando esses sentimentos e emoções representados através de
escritos, com este público que o freqüenta. Representações que também evidenciam as
marcas disciplinares e normativas da cultura social internalizadas pelos sujeitos e que
encontra, no banheiro, um território livre para expressar suas intimidades, e que ao
mesmo tempo evidenciam “as regras internalizadas que levam as pessoas as se
submeterem a uma censura interior” (TEIXEIRA; OTTA, 1998, p.232).
A porta do banheiro é um convite, uma folha em branco prestes a ser ocupada,
rabiscada, alterada pela imaginação do seu usuário, apenas o barulho eventual da água
pingando pela torneira ou descendo pelo vaso sanitário, o rolo de papel higiênico são as
suas testemunhas,
O texto, uma textura, uma teia tecida coletivamente, a porta de banheiro junta
todos estes signos e não-signos e fica lá, à espreita, à espera do leitor, do
escritor, que se tornam naquele microcosmo autores de uma história que
transgride a oficial, que apenas a tangencia, que a nega. Eles circulam, como
moscas-varejeiras, voyeurs atrás do traço, atrás da porta (BORDIN, 2005,
p.53).
Desta forma, o banheiro e seus escritos ou grafitos tornam-se uma importante
fonte de investigação para ser perceber além do perfil dos sujeitos que os freqüentam;
suas histórias de vida, a própria cultura das cidades, “território sujo, livre, que parece
oferecer-nos segurança, anonimato, intimidade, o banheiro é um dos locais onde mais se
produzem grafitos em nossa sociedade” (BARBOSA, 1984).
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