Table Of ContentCaros Amigos:
conexões entre projeto gráfico e linha editorial
Thales Vilela Lelo∗
Universidade Federal de Ouro Preto
Índice umaapreciaçãodousodogrid,dasdiretrizes
dacomposiçãovisual,dousodecor,dalegi-
Introdução 1
bilidade e dos critérios de noticiabilidade. A
1 Oscritériosjornalísticos 2
primeira etapa foi dividir e analisar cada as-
2 O uso do diagrama e os espaços da
pectográficoseparadamente;analisarostex-
página 4
tos e elementos iconográficos quanto ao uso
3 Legibilidade,estruturaetipografia 5
de critérios jornalísticos. Por fim, uni-los de
4 DesignGráfico 7
modoarevelaroprodutopormeiodoprojeto
5 O uso de imagens e cores em Caros
gráfico-visualeeditorial.
Amigos 8
Palavras-chave: Caros Amigos; Projeto
ConsideraçõesFinais 11
Gráfico;Valores-notícia.
Bibliografia 11
Introdução
Resumo
Arevista Caros Amigos foi lançada em
A proposta deste trabalho é o de anali-
São Paulo no ano de 1997, com di-
sar uma publicação mensal quanto à confi-
reção do jornalista Sérgio de Souza e com
guração gráfica e editorial: a revista Caros
apropostadeserumveículodispostoa
Amigos. Para tanto, os critérios de análise
utilizados são os parâmetros da composição
trazer diferentes opiniões e idéias
gráfica e os valores-notícia. Na tentativa de
importantes de diversos perso-
perceber uma unidade entre ambos os com-
nagens da vida brasileira, além de
ponentes–aspectosgráficoselinhaeditorial,
reportagens, compondo um amplo
a análise das publicações se iniciou a partir
quadro dos planos político, social,
dos elementos da tipografia, avançando para
econômico, cultural, das artes, das
∗Graduando em Comunicação Social – Jorna- ciências e da ética [...]. A linha
lismo pela Universidade Federal de Ouro Preto editorial da caros amigos sempre
(UFOP).BolsistadeIniciaçãoCientíficadoprograma
trata, em suas matérias e colu-
PIBIC/CNPq e membro do Grupo de Pesquisa “Lin-
nas, sobre os mais variados temas,
guagem,narrativaserecepção”.
2 ThalesVilelaLelo
abordados com total liberdade pe- A/B, sexo – 65% masculino, faixa etária –
los articulistas, além de longas e 48% de 19 a 29 anos e grau de instrução –
esclarecedoras entrevistas [...] A 38% com 2o grau completo/superior incom-
revista conta com profundas re- pleto. Segundo pesquisa realizada por Caro-
portagens, ensaios sobre questões line Stinghen (2007), pouco mais da metade
brasileiras e internacionais, uma dos leitores do veículo são solteiros (55%)
página central com instigantes en- e trabalham (67%), e 75% têm acesso a in-
saios fotográficos e seções críti- ternet, com 22% recebendo semanalmente
cas sobre artes, política, com- o Correio Caros Amigos e 32% visitando o
portamento e humor (PEREIRA site eletrônico com regularidade. Seu estudo
FILHO,2004:27). tambémacrescentaqueamédiadevendaem
bancadarevistaéde20.000exemplares.
Para Pereira Filho, o projeto gráfico Porfim,tocanteadadostécnicosdapubli-
da Caros Amigos teria como conceitos- cação,seuformatoéde27x33cm(aberto),
chave, “a reconquista para a grande com papel Off set 90grs e média de 48 pági-
reportagem e o texto de fôlego e de nas por edição. As quatro primeiras e qua-
autor, as entrevistas-testemunho e o de- tro últimas páginas são coloridas, enquanto
bate de idéias” (ibidem, p.29), sendo a omioloéempreto/brancoevariadostonsde
revista de abrangência nacional e perio- cinza.
dicidade mensal, saindo nas bancas toda
primeira segunda-feira do mês. Segundo
1 Os critérios jornalísticos
dados da própria empresa (site http:
//www.carosamigos.terra.com.br), Em entrevista a Pereira Filho (2002), Sérgio
sua tiragem é de 40.000 exemplares, de Souza descreve a redação de Caros Ami-
com circulação líquida paga de 26.000 gos como um sistema que funciona mais de
exemplares e audiência de 124.800 fora para dentro do que de dentro para fora,
leitores (média de 4,8 leitores por e- já que a maior parte do material publicado
xemplar). No mídia kit da empresa é enviado por colunistas, por assinantes de
(http://carosamigos.terra.com. seções fixas, do autor do ensaio fotográfico
br/midia_kit_2010_tabela.pdf), ederepórteresefotógrafos. Nestacoletânea
estatísticas referentes a distribuição geográ- detrabalhosrecebidos,apeça-chavedecada
fica da publicação informam que seu lugar publicação é a “grande entrevista”, feita por
de maior vendagem é na Região Sudeste, profissionais da redação e convidados. Este
com 54% das vendas. O Nordeste vem em material, que para Pereira Filho se encon-
segundo com 20%, seguido pelo Sul com tracomahistóriaoral,procuradialogarcom
12% e o Centro-Oeste com 11%. A Região a literatura, “na medida em que amplia os
Norte representou somente 3% de impacto níveis de contextualização, apresentando o
comercial. entrevistado como um sujeito de um mundo
Já nos gráficos referentes ao perfil de seus complexoeenvolvidopordiferentesforçase
leitores, tem-se que as porcentagens predo- conflitossociais”(ibidem,p.7). Porém,além
minantes são: classe social – 66% da classe da entrevista, outras reportagens, perfis, a
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CarosAmigos: conexõesentreprojetográficoelinhaeditorial 3
seção de cartas dos leitores e um pequeno e- dá conta de temas já pautados pe-
ditorialtambémsãoelaboradosinternamente los grandes veículos de comuni-
naempresa. cação, tem como princípio fazê-lo
Mas se as contribuições são múltiplas, demaneiradiferente. (ibidem,p.5)
qual linha editorial segue a revista e de que
forma os critérios jornalísticos atravessam Com este conjunto de informações bási-
suas páginas? Para Pereira Filho, Caros cas, cabe assinalar que, neste trabalho, será
Amigos não exclui a linearidade, já que, en- realizada uma análise pormenorizada de
quanto processo comunicacional e jornalís- uma série de tópicos que permeiam desde
tico, “se propõe a transmitir informações e a questões tipográficas, passando por design
responder, em algum momento, às seis per- gráfico, legibilidade indo até ao uso da co-
guntasclássicas(oque,quem,quando,onde, municação visual no veículo a fim de tentar
por que, como)” (ibidem, p.5). Porém, o tecerredesdeconsonânciaentreprojetográ-
autor discorre que a publicação não se con- fico e linha editorial. Para esta tarefa, será
tentaemdistribuirestelidenoprimeiropará- tomado como objeto de análise a edição de
grafo, por considerar que isto não basta para novembrode2003,comaseguintemanchete
compreender a universalidade e intensidade na capa: “Entrevista explosiva – Eduardo
de sentimentos e emoções humanas. As- Suplicy: O Senador que não sabe mentir”, e
sim, ela se supera ao ultrapassar estas bar- foto de Nino André. A tiragem desta edição
reiras pondo em cena a complexidade da re- foide55.000exemplares,com48páginas.
portagem como um “olhar possível sobre o Assim, na edição analisada, procurou-
mundo” (ibidem, p.6). Mas, para se alçar se observar primeiramente, a partir das as-
esta façanha, é mister um desvio da idéia serções de Pereira Filho, como os elementos
de texto simplista e padronizado para atingir da publicação se dispõem na edição gráfica.
um maior número de leitores “desinforma- Ainda que se entendam os gêneros como
dos”, opondo-se a esta prerrogativa com um códigos que tornam compreensíveis uma
texto empapado pela figura do autor, que se gama de mensagens, é importante ressaltar
projeta suscitando questionamentos. Pereira que sua construção é dada em um processo
FilhoentãoafirmaqueCarosAmigos interlocutivo amplo, e por mais que sejam
úteis alguns ficheiros de classificação, não
desafia a grande imprensa a rever
cabe tomá-los como camisas de força, já
aslimitaçõesdeseus“critériosjor-
que, como ressalta Gonzalo Peltzer (1992),
nalísticos”. Há, portanto, uma
os mesmos são arranjos intermutáveis, am-
ampliação enriquecedora do con-
pliáveis,maleáveisereduzíveis.
teúdo, da agenda, da possibilidade
As análises de Pereira Filho vão então ao
de pautas e dos assuntos colo-
encontro do estudo aqui realizado em di-
cados ao debate público. Mais
versos momentos: 1) a entrevista é real-
do que com a atualidade, o hard
mente o carro-chefe da publicação, tomando
news, vislumbra-se a prerrogativa
a maior parte da capa com a chamada “en-
dacontemporaneidade.
trevista explosiva” e um conjunto significa-
Mesmo quando “Caros Amigos” tivo de páginas no miolo (32 a 39); 2) há
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4 ThalesVilelaLelo
a presença de diversas colunas ao longo da novembro de 2003, são perceptíveis quatro
Caros Amigos, notáveis por seu fundo em modos de disposição de elementos na lauda,
tom cinza e com nomes fixos e fotos dos a partir dos seguintes padrões: uma coluna
seusautores/símbolosnotopodaslaudas(na (págs. 4, 32 e 46), duas colunas (págs. 5, 8,
edição de novembro de 2003 foram 8 neste 13, 22, 31 e 42), uma versão de duas colu-
moldee1docompositorFerrézquenãopos- nas não-simétrica (págs. 11, 12, 18, 21, 24,
suía avatar); 3) as reportagens também es- 25, 40 e 43) e três colunas (nas demais pági-
tão salpicadas pela revista, e sua construção nas). Serão aqui descritas superficialmente
muitas vezes se dá com o início formulando as medidas das quatro possibilidades de dia-
um questionamento (págs. 15 e 21) ou con- gramaçãoconstatadas.
textualizando o personagem central do texto O exemplo da primeira delas será o da
(págs. 26 e 30), fugindo desta forma dos página 32. Nela, temos uma coluna arran-
cânonesdapirâmideinvertida. jada com as seguintes margens: inferior 2
Nospróximostópicos,comojádito,serão cm, superior 1,5 cm, esquerda 1,4 cm e di-
feitas outras sondagens com aparelhos teóri- reita 1,7 cm. Já na amostra de duas colunas
cos específicos, no intuito de construir um (página 42), temos as mesmas definições de
mosaico de informações sobre a revista que margem, e o espaçamento entre as duas co-
serãonofinal,cruzados. lunas de 11,6 cm é de 0,4 cm. No predo-
minantemodelode3colunas,oexemplarda
página 39 denota os mesmos dados, porém
2 O uso do diagrama e os
com dois espaçamentos entre as colunas de
espaços da página
7,9 cm de 0,4 cm. O diagrama de duas colu-
nasnão-simétricaspossuialgumasvariações
Ao discorrer sobre a importância do equi-
quanto ao tamanho das colunas, e na página
líbrio, estrutura e unidade para imagens grá-
18 as medidas são: coluna esquerda 9,7 cm
ficas, Alex Swann afirma que “los trabajos
e coluna direita 13,5 cm, com espaçamento
de diseño gráfico que vemos a cada dia a
entre elas de 1 cm e margens esquerda, infe-
nuestro alredor se han compuesto utilizando
rioresuperiorde0,7cmediretade1,4cm.
líneas guia y reglas, para ordenar la infor-
Porém, apesar de apresentarem alguns
mación que se exhibe de uma forma equi-
padrões detectáveis, é perceptível que o ob-
librada aunque creativa” (SWANN, 1990:
jeto analisado não apresenta estruturas es-
6). Assim, ele irá afirmar que uma fer-
tanquesaolongodesuaslaudas,sofrendoal-
ramenta importante para dimensionar este
teraçõesnotamanhodasmargensmesmoem
equilíbrio é o diagrama, que “es la división
suas formas de colunagem simétrica. Para
geométrica de un área en colunas, espacios
umsegundomomentodestetópicoserãoen-
ymárgenesmedidoscomprecisión”(ibidem,
tão expostas algumas ferramentas de exame
p.7). Cabeentãotentardelimitarautilização
do aproveitamento de espaços nas páginas
destemecanismonaspáginasdaCarosAmi-
segundo os preceitos de zonas de visualiza-
gos analisada, a partir dos pressupostos do
çãoepontosdeatenção.
referidoautor.
Para Silva (1985), a identificação das
Percorrendo as páginas da edição de
zonas de visualização em uma página de
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CarosAmigos: conexõesentreprojetográficoelinhaeditorial 5
jornal se dá em cinco categorias: a) zona Já na página 15, a figura no canto supe-
primária; b) zona secundária; c) zonas mor- rior esquerdo corresponde à zona primária,
tas; d) centro ótico; e) centro geométrico. A orientando a atenção do texto para a direi-
zona primária, situada no lado superior es- ta. No centro de atenção visual está colo-
querdo da página, deve conter um compo- cada linha-fina, e nas zonas mortas há es-
nentefortequeatraiaaatençãodoleitor,seja paços em branco. A página 18 tem como
uma foto, um texto ou um grande título, en- centro óptico o título “57o”, e nas zonas
quanto a zona secundária será a direção da primárias se encontra a coluna porca misé-
visão em um momento posterior. A diagra- ria! – com uma foto de Glauco Mattoso.
mação deve tomar conta das zonas mortas, Na página 36, a fotografia de Eduardo Su-
alocadas no lado superior direito e lado in- plicy,situadanocantosuperioresquerdo,faz
ferior esquerdo da página, e o centro ótico, parte da zona primária, orientando a atenção
centro real de qualquer peça impressa, é para a esquerda da página. O centro ótico
identificávelumpoucoacimadocentrogeo- então está à direita, onde se tem um bloco
métrico, no cruzamento das diagonais, com de texto que não corresponde ao início do
feiçõesatrativasqueacionemumaleituraor- mesmo na lauda. Finalizando, na página 29
denada, veloz e agradável, sem deslocamen- há uma fotografia na zona geométrica, en-
tos brutais no olhar do leitor. Milton Ribeiro quanto no centro de atenção visual há uma
dialogacomestateseaodizerque massa de texto. Já na página 30 a fotografia
está numa zona morta. Estas três últimas
quandoumafiguraouobjetoorien- amostras, tiradas de páginas também cen-
te a atenção para a direita, o cen- trais, denotam problemas na estruturação do
tro ótico estará situado acima do diagrama.
matemático e para a esquerda. Se,
pelo contrário, o movimento for
3 Legibilidade, estrutura e
orientado para a esquerda, deve-se
tipografia
proceder inversamente, situando o
centro ótico à direita do conjunto
José Coelho Sobrinho (1987), afirma que os
(RIBEIRO,1987: 170)
primeiros estudos sobre legibilidade datam
de 1790, com testes de leitura com tipos
Para identificar a existência ou não destas
Didot e Garamont, a fim de descobrir, em
zonas no objeto deste estudo, serão sele-
diferentesdistâncias,qualeraomaislegível.
cionadas algumas páginas que possam refle-
O autor então traça um panorama das prin-
tir o conjunto da publicação. Na capa, por
cipais pesquisas do campo, delineando em
exemplo, as zonas mortas correspondem ao
seguida os principais resultados obtidos nas
local onde está o fio data da Caros Amigos
mesmas. Deste modo, cabe descrever aqui
e as referências de seus autores. O cen-
algumas destas conclusões para observá-las
tro de atenção visual corresponde à imagem
noconjuntográficodaCarosAmigos.
de Eduardo Suplicy, que orienta a atenção
No quesito forma de tipos, foi constatado
para o canto esquerdo da página onde es-
que as letras em caixa baixa “são mais
tão alocadas as manchetes (zona primária).
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6 ThalesVilelaLelo
legíveis que aquelas compostas em caixa si só desaconselha a hifenização” (ibidem,
alta, porque possibilitam a identificação da p.42). Assim, com as devidas conside-
forma, apesar de serem percebidas com rações, é importante se interrogar como a
maiordificuldade”(SOBRINHO,1987: 35). Caros Amigos trabalha com estas questões.
Para Peterson e Tinker (apud ibidem, p.38), Para isso, primeiro serão descritas algumas
através do método de rapidez na leitura, se características da publicação diagnosticada,
comprovou que os tipos itálicos são lidos utilizando as categorias esquematizadas por
maisvagarosamentequeosnormais,eataxa RobinWilliams(1997).
de desempenho reduz em 10,5% no quesito A Caros Amigos se estrutura com média
velocidade e compreensibilidade em textos de 169 toques por linha, em texto justificado
corridos em itálico. Quanto ao negrito, sua e hifenizado. Quase todos seus títulos, sub-
perceptibilidade à distância foi maior que a títulos e intertítulos são em bold, com pre-
de tipos normais. Pela medida de visibili- dominânciadeintertítulosemcaixaaltaetí-
dade, Lukiesh e Moss (apud ibidem, p.38), tulos em caixa alta e caixa baixa. Os títulos
notaram que o aumento do peso dos tipos (ou intertítulos) em caixa alta não possuem
é diretamente ligado a sua taxa de legibili- serifas,enquantoosemcaixabaixapossuem
dade. Porém, como Tinker e Paterson (apud serifas grossas. Nas linhas-finas dos títulos,
ibidem, p.38) apontam, 70% dos leitores nota-se o uso de caixa alta em negrito, com
preferem tipos normais, e o negrito, assim estilo moderno. Os textos corridos são pre-
como itálico, só deve ser usado em casos dominantemente em caixa alta e baixa, de
imprescindíveis. Os mesmos autores tam- estilo antigo e com serifas, sem itálico ou
bém perceberam uma grande queda na rapi- negrito (embora há páginas onde há textos
dezdeleituraemtextoscomdiferentespesos emnegrito,comonapágs. 05e25ecomos-
e desenhos, e Later e Tinker (apud ibidem, cilações entre caixa alta e caixa alta e baixa,
p.38), descrevem que textos em caixa alta a exemplo das páginas 10 e 11). A capa é
são lidos 13,89% mais vagarosamente que quase toda em caixa alta, com chamadas em
emcaixabaixa,concluindotambémquenão bold e sem serifa, valendo destacar que só
há diferença considerável na distância em o nome da publicação, Caros Amigos, é em
que as duas categorias de tipos são notadas. estilodecorativocomcaixaaltaebaixa.
O ponto-chave nesta observação é que não Assim, comparando as configurações da
há atraso na percepção de títulos em caixa revista com os critérios de legibilidade,
baixa, sendo desaconselhável também o uso entende-se que a edição infringe alguns dos
deversaletesnapágina. parâmetros definidos por José Coelho So-
Uma última informação importante é brinho, como o uso de hifenização e o a-
sobre a margem direita não justificada. linhamento justificado no texto. Os intertí-
Pesquisas denotaram (ibidem, p.42) queda tulos em caixa alta muitas vezes atrapa-
na legibilidadeem composições justificadas, lham a velocidade na leitura, assim como
havendo maior facilidade de leitura em tex- considerável volume de texto em negrito
tos alinhados a esquerda. Para Sobrinho, na página 05 e as linhas-finas também em
“deve-se acrescentar o fato de as palavras negrito. As variações de peso no sumário da
serem identificadas pela forma, o que por página05enocorpodotextodaspáginas10
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CarosAmigos: conexõesentreprojetográficoelinhaeditorial 7
e 11 são também desnecessárias segundo a O segundo ponto destacado por Williams
perspectivalevantadapeloautor. é o alinhamento. Para a autora, “nada deve
sercolocadoarbitrariamenteemumapágina.
Cada item deve ter uma conexão visual com
4 Design Gráfico
algo na página” (ibidem, p.27). Assim, para
Para esta etapa de apreciação, a referência se atingir este objetivo, deve-se evitar usar
principal será os princípios básicos de de- mais de um alinhamento de texto por página
sign abordados por Robin Williams (1997): eoalinhamentocentralizado(ibidem,p. 42).
proximidade, alinhamento, repetição e con- A publicação analisada também apresenta
traste. Cada um destes princípios será uti- problemas nesse quesito, utilizando-se de
lizado como instrumento para avaliação do diversos alinhamentos numa mesma página
material gráfico da Caros Amigos exami- (págs. 12,14,15,17,19,20,porexemplo).
nada, não desconsiderando que esta divisão O terceiro princípio é o de repetição. Para
técnica não implica dissociação entre os e- a autora, “algum aspecto do design deve
lementos – cada um deles depende e é in- repetir-senomaterialinteiro”(ibidem,p.43).
trínsecoaooutro. Destarte, deve-se evitar repetir algum ele-
Assim, ao refletir sobre a importância da mentoemdemasia,considerandoarepetição
proximidade, Williams pontuará que “itens como consistência (ibidem, p.52). Caros
relacionados entre si devem ser agrupados e Amigos reproduz em todos os finais de texto
aproximados uns dos outros” (WILLIAMS, o símbolo da Editora Casa Amarela, com o
1997: 15). Para efetivar esta unidade visual intuito de dar unidade ao conjunto da publi-
que implica relação e organização, a autora cação. Todas as colunas fixas também pos-
propõe que se pisque os olhos e conte os e- suem uma linha horizontal preta no topo da
lementos visuais na página, e se houver en- página com o nome da mesma e uma ima-
tre 3 e 5 itens na página, pensar quais pode- gemdoautordela.
riam ser agrupados em proximidade. Ela O último apontamento de Robin Williams
também pontua que se deve evitar elemen- é referente ao contraste. Para ela, “se
tos separados, itens somente nos cantos e dois itens não forem exatamente os mes-
nomeiodapágina,quantidadesequivalentes mos, diferencie-os completamente” (ibi-
de espaços em brancos entre os elementos, dem, p.53). Para cumprir esta meta,
dúvidaquantosuarelaçãoeagrupamentoin- é necessário evitar diferenças não muito
devido (ibidem, p.26). Em Caros Amigos, aparentes, criando contrastes fortes entre
há a preocupação com proximidade, sendo itens da página (ibidem, p.62). Na revista
proeminente em diversas páginas da publi- analisada,aformamaispresentedecontraste
cação (vide 13, 28, 31, etc). Porém, há é de peso entre título e texto corrido. Os tí-
problemas,eserãonotificadosdoisdeles: na tulosemgeralsãoemcaixaalta,semserifas,
página 29 não há conexão aparente entre as embold ecomcorpomaiorenquantoostex-
fotografias e os intertítulos da reportagem, e tos são configurados com caixa alta e baixa,
na 13, uma proximidade muito grande entre serifados, com corpo menor e estilo antigo.
título (Cuba), subtítulo (Outra Enfermaria) e Ocontrastedecorestambémédestacável,já
tópico(3. OPaísdeLuisnãopodedarcerto). que muitos títulos tem duas cores diferentes
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8 ThalesVilelaLelo
(vide pág. 23), títulos e subtítulos que se nhos para jornais diários, revistas de infor-
utilizam do mesmo princípio (um exemplo mação e uma gama de publicações impres-
é a pág. 13), ou mesmo páginas espelhadas sas. Suas inovações oscilam entre um maior
comcorescontrastantes(aexemplodopreto detalhamento de matérias interpretativas e
ebranconaspágs. 24e25). opinativas e um tratamento gráfico extrema-
menteapurado(ibidem,p.384).
Após este breve percurso histórico, é
5 O uso de imagens e cores em
necessário voltar ao objeto de análise,
Caros Amigos
para estabelecer linhas de contato entre a
evoluçãodaspreocupaçõesrelativasaoscon-
Gonzalo Peltzer, ao falar das característi-
teúdos visuais e a Revista Caros Amigos.
cas visuais dos jornais, irá afirmar que a
Pereira Filho (2002) ressalta que muitas das
história do jornalismo iconográfico é di-
referências da Caros Amigos vêm dos pio-
retamente atrelada a “história das tecnolo-
neirismo da Realidade, e sua proposta é
gias que tornaram possível o visual como
também a de trazer olhares interpretativos
linguagem informativa” (PELTZER, 1992:
para determinados acontecimentos. As fo-
104). O autor reforça o argumento ao dizer
tografiaseilustraçõessefazempresentesem
que os sistemas digitais de vector e raster
28 das 48 páginas da edição analisada, mas,
possibilitaram o “uso generalizado, pela im-
para entender qual o papel destas imagens,
prensa, da linguagem visual. Converteu em
como elas se relacionam aos conteúdos das
jornalística a velha e moderna linguagem
matérias, é necessário um diagnóstico mais
dos signos não lingüísticos nem paralingüís-
apuradonapublicação.
ticos” (ibidem, p.115). Para García (1984),
Peltzer (1992) considera que as ex-
as experiências de associação da linguagem
pressões de linguagem visual são compostas
gráfica e do texto jornalístico só se tornaram
por diversos tipos de códigos visuais, se-
realmenterelevantesparaasempresasnadé-
jam eles gráficos, lingüísticos, fotográficos,
cada de 1960, com o desabrochar dos inte-
etc. Para o autor, os gêneros ou códigos vi-
resses na utilização de espaços em branco,
suais podem se dividir em sete grupos prin-
fotografias, variação de tipos, ordenação do
cipais: 1) Gráficos; 2) Infográficos; 3) Ma-
conteúdoeosentidodecontinuidade.
pas; 4) Símbolos; 5) Ilustrações; 6) Comics
Já no Brasil, o final da década de
e 7) Iconografia animada. Numa pesquisa
1950 é paradigmático destas mudanças no
por figuras representativas destes grupos na
campo jornalístico, e “a revolução gráfica
Caros Amigos, foi possível identificar so-
racionaliza a produção editorial e torna mais
mente dois deles: os símbolos (4) e as ilus-
dinâmica a notícia. Tudo no jornal é afe-
trações(13).
tado por novas formas de edição que visam
Peltzer(ibid)tambémdescrevesubgrupos
valorizar o conteúdo e o leitor ao mesmo
dentre os sete principais traçados, porém,
tempo” (BAHIA, 1990: 378). Em 1956
para os propósitos deste exame, serão levan-
a Revista Realidade é lançada pela Editora
tados só aqueles referentes às categorias de-
Abril, e sua espantosa qualidade editorial
tectadasnaCarosAmigos. Notópicosímbo-
e de recursos visuais passa a ditar cami-
los, o autor desdobra oito linhas: pictogra-
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CarosAmigos: conexõesentreprojetográficoelinhaeditorial 9
mas, logotipos, isotipos, grafismos, ban- com o assunto abordado na matéria. Kos-
deiras, escudos, selos, marcas, cunhos e se- soy também abrange uma sondagem pelas
tas. Na edição analisada da revista, foi pos- tecnologias empregadas na foto e um con-
sível identificar um logotipo (a figura da E- junto de questões relativas ao fotógrafo, es-
ditora Casa Amarela) e três grafismos (nas paço e tempo, mas para os interesses deste
páginas 16 e 31, respectivamente). Já no to- estudo, serão considerados somente os dois
canteàsilustrações,Peltzerirádefinirquatro primeirostópicos.
subdivisões: retrato, humor gráfico, humor Percorrendo as páginas da Caros Amigos
gráfico editorial e caricatura. Destes quatro analisada, pode-se identificar 27 fotografias,
grupos, foi possível constatar a presença de dispostas nas seguintes páginas: (1, 5, 6,
um retrato (página 15), de dez imagens de 9, 10, 13, 18, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29,
humor gráfico (págs 4, 8, 12, 18, 21, 22, 40, 31, 32, 35, 36, 39 e 44). Com exceção
43 e 44), um humor gráfico editorial (página das imagens de Eduardo Suplicy (páginas
46) e uma caricatura (página 30) na revista 32 a 39), as da reportagem sobre o tra-
analisada. balho de campo do psicólogo da USP Fer-
Cabe também pormenorizar a presença de nando Costa (páginas 26 e 27), do ensaio
fotografias na Caros Amigos. Como coloca de James Kudo (páginas 24 e 25) e da
Rogério Arruda, as imagens fotográficas são figura de um par de tênis surrado na co-
um “fio de uma rede que conecta sujeitos luna República (pág.31), é razoável agru-
entre si e o mundo. Um mundo que ao par as demais primordialmente como ima-
ser representado, é de alguma forma, re- gens de identificação devido as seguintes
criado” (apud MENDONÇA, 2006: 28). características: o fato de serem posadas,
Desta forma, as fotos “mostram um frag- deestaremcomangulaçõescentralizadasdi-
mento selecionado de aparências das coisas, mensionadas em planos americanos (pág.
das pessoas, dos fatos, tal como foram 05) e close (a exemplo dos avatares dos au-
(estética/ideologicamente) congelados num tores de algumas colunas, como nas págs.
dadomomentodesuaexistência/ocorrência” 09,10,13,18e23),dospersonagensestarem
(KOSSOY, 1999: 21). Assim, para pen- olhando diretamente para a câmera, das le-
sar sobre as configurações destes elemen- gendas serem em suma descrições sobre o
tos nas páginas da revista, será considerado personagem da imagem, e de sua relação
o método de análise iconográfica defendida comasmatériasserdepersonificaçãodosu-
por Boris Kossoy, onde se objetiva entender jeitonarradoouautordotexto.
mecanismos da segunda realidade, que “é AsimagensdeSuplicy,dareportagemso-
a representação construída, da realidade ex- bre Fernando Costa e da coluna República
plícita, mimeses de uma pretensa realidade” também podem ser entendidas no terreno da
(GONÇALVES, 2009: 239). A intenção identificação,porémasleituraspreferenciais
deste procedimento é desvelar algumas in- de ambas apontam para outros sentidos. Na
formações estéticas sobre a imagem, que entrevistacomSuplicy,asériedefotografias
perpassam a identificação de detalhes icôni- do Senador está combinada com as legen-
cos que compõem o conteúdo, bem como das. Nas páginas 35, 36 e 39, suas falas são
informações sobre a fotografia em relação tomadas como legendas e emergem como
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10 ThalesVilelaLelo
“balões de pensamento”, re-significando as percebidas no objeto, sem media-
fotos como se elas fossem registros verídi- ção(GUIMARÃES,2003: 81)
cos das posições ideológicas do político ex-
pressadas textualmente. Já na reportagem Nesta órbita interpretativa, as variações
sobre Fernando Costa, a primeira figura é tonais e de intensidade da cor carregam
propositalmente posada para ironicamente múltiplos sentidos que são também cultural-
pessoalizar sujeitos que o texto trata como mente aprendidos. Nos menores índices de
“invisíveis” socialmente, ou seja, mais do croma, o autor revela que há uma “inte-
queservirparaidentificarosmesmos,aponta ressante e ambígua relação entre o real e o
para as tensões refletidas no texto de Sofia imaginário” (ibidem, p.83), já que os mes-
Amaral. Oscilando em outra dinâmica, es- mospromovemtantoumaconexãocomson-
tão o ensaio de James Kudo e o par de tênis hos e textos da memória quanto com a ex-
da coluna República. O primeiro conjunto pressão de uma realidade “crua”. Guran
de imagens é por si só o ponto de interesse (apud LÜERSEN, 2007) dialoga com esta
da coluna intitulada “Ensaio”, e o segundo perspectiva, ao assegurar que na monocro-
é um avatar de identificação da coluna, po- miafotográfica,aatençãoévoltadaparauma
dendo ser entendido também como um sím- forma de representação do essencial, já que
bolodavidaestudantil. a imagem se torna um código diferenciado
É necessário também desviar o foco de da nossa forma de mirar a realidade, susci-
atenção das imagens em si para as cores tando assim uma gama de interpretações da
que as preenchem. Como propõe Dondis situação mais do que da imagem em si. Já
(DONDIS apud LÜERSEN, 2007), a cor, na fotografia colorida, o foco seria a repre-
que é uma experiência carregada de sentido sentação “mais fiel” da realidade, sendo a
eumadasexperiênciasmaissocialmentepe- forma mais utilizada atualmente pelas práti-
netrantes, se constitui como uma valiosís- cas midiáticas, devido sua semelhança com
sima fonte de comunicação visual. Destarte, oqueévistopeloolhohumano.
a argumentação de Guimarães desvela al- Como já dito, a Caros Amigos analisada
guns dos processos de compreensão da cor, possui as quatro primeiras e as quatro últi-
jáque,paraoautor, mas páginas coloridas, sendo todo o miolo
preenchido em tons monocromáticos. Esta
no eixo de variação de croma, um estrutura então influi no modo de inter-
dos extremos corresponde à sat- pretação imagética, indo ao encontro dos
uração máxima das cores: a i- teóricos acima percorridos na fotografia da
magem se apresenta em cores vi- página 26, por exemplo. Na primeira ima-
vas e intensas. No outro extremo, gem, que ocupa mais da metade da lauda,
as cores da imagem são transfor- temos os garis que participaram da pesquisa
madas em suas correspondentes de campo de Fernando Costa, e abaixo o tí-
emtonsdecinza(incluindobranco tulos da reportagem: “olhe bem, aproveite,
e preto). Toma-se como padrão porque eles são invisíveis”. Esta disposição,
da realidade as cores que mais se emconsonânciacomocaráterposadodore-
aproximam das cores diretamente trato (e também com o tipo sem preenchi-
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Description:7. 5 O uso de imagens e cores em Caros. Amigos. 8. Considerações Finais. 11. Bibliografia .. propõe que se pisque os olhos e conte os e- lementos